quarta-feira, 9 de maio de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Saudade!




Hoje senti uma saudade da época que o blog era a principal "rede social"!!
Cada dia que passa sinto o tempo correndo e até acontecimentos relativamente recentes, são "passado".
Isso é vida, mas é sempre "estranha" a adaptação!
Tudo é muito rápido e quem é, ou quer ser, mais lento não se enquadra e por isso a saudade.
Saudade dos amigos que fiz aqui e hoje nem sei mais por onde andam.
Saudade!!
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sábado, 10 de dezembro de 2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

Aniversário de Clarice Lispector


Notas de Clarice Lispector - porque fazia tempo que eu não falava, e não falava dela, que nasceu em 10 de dezembro de 1920 (pelo menos a data oficial!)

***

Eu, alquimista de mim mesmo. Sou um homem que se devora? Não, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim em cada um dos meus modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e Deus.

Vivo em escuridão da alma, e o coração pulsando, sôfrego pelas futuras batidas que não podem parar. (Clarice)

***

Saudade

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida. (Clarice)

[Nota minha: e quem há de dizer que nunca se sentiu assim?]
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domingo, 2 de outubro de 2011

domingo, 2 de outubro de 2011

Poesia (des)falecida

***
Posso simplesmente não dizer nada?

Posso simplesmente te querer?

Posso levar meus olhos a passear pela tua ausência,

sentindo o teu buscar nas minhas retinas

que enxergam flores em janelas debruçadas de dor?

Posso querer te mostrar meu olhar pelo mundo e meu mundo,

que se limita ao meu pensar atravessado pela tua poesia suplicante?

Quero querer e poder navegar meus olhos transbordantes de cinza,

que são tingidos pelas flores róseas, lilases e vermelhas das azaleias,

dos ipês e dos gerânios.

No meu cinza não há deserto,

há uma aquarela pintada pela vontade de viver amando o que pode ser amado,

de carregar para dentro de mim - trazido na palma da mão –

o universo todo que me encanta,

desde as palavras até os palácios que vi e aqueles que imaginei.

Posso te dizer que me encantas com um pulsar inexistente de poesia falecida?

Posso?
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terça-feira, 26 de julho de 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

De medos e descrenças

Imagem: Viktor Vasnetsov [A Donzela na neve]

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Num dia, fé pura

noutro, descrença que sofria.

Quase suplicava pela fé dos muito crentes,

que ignoravam crueldades e ultrapassavam todas as dores.

Almejando alcançar o reino prometido,

enxergavam justiça no caos do dia-a-dia,

que ela simplesmente não via.

Olhava a lua que espelhava a verdade dos medos e inseguranças,

tudo bem camuflado por baixo dos tapetes de gelo

que lhe forravam a alma desengonçada-de-não-saber-viver.

Escondia os receios na ponta de cada esperança

que acendia no alvorecer e morria quando a lua cheia

lhe atravessava com verdades que teimava não enxergar.

Hoje é julho e um tempo de genuína dissintonia.

***

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domingo, 15 de maio de 2011

domingo, 15 de maio de 2011

Pôr de son(h)o


**
O pôr do sol visto através da janela do avião parecia anunciar um incêndio no além. Não pensar era o objetivo da viagem, mas ao mirar o horizonte, um pensamento lhe vem à cabeça: “para o além deste infinito há um fogo para acender a vida que se fez cansada e apagou sem deixar brasa”. Nas cinzas mornas que ficaram juntas, o prenúncio de que nem tudo estava perdido, afinal elas não se espalharam ou se perderam quando aquele vento soprou. A viagem seria longa e, portanto demorada, mas o sol que tingia o horizonte - de maneira tão singular - imprimiu uma sensação de paz que não saberia explicar. E a sensação se infiltrou na alma, como a água derramada sobre a folha do papel: você virá um dia. Subverterá a calmaria do azul, com seus tons quentes de laranja e vermelho? Virá e ultrapassará as nuvens carregadas de dores melancólicas para pousar no chão da sala, esparramando a poesia que ficou enclausurada? Era certeza e era dúvida. Por fim conformou-se que não veria impresso na lua - que surgiu ao escurecer - o rosto sorridente que lhe fazia pulsar nas remotas noites invernais, pois este sim, o verão tinha carregado naquele sopro quente. Se tudo não foi sonho, foi o sono que lhe fez alucinar. Aguardou o momento de libertar-se das palavras que se comprimiam no peito e deixavam a existência sem as temperaturas e as cores do outono que apreciava e acalmavam.

**
A imagem peguei na internet - sem autoria
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

De verões

Hotel Room - Edward Hopper


***


Os papeis atirados no chão da sala.

O sol vertendo seu sangue lá fora;

Gotas de suor jorrando da testa,

molhavam os pedaços da vida.

Vida! Sem idade para esperanças, olhava o passado atirado no chão.

mas houve um tempo de acreditar:

tempo de cartas e roteiros de viagem,

olhos navegando no passado,

como se fosse o ante(ontem) latejante.

Todas aquelas palavras contavam de lugares, falavam de pessoas,

uma melancolia de verões (ou)tonos do passado.

Visitava sons, aromas e sabores.

Ao voltar, atirava no lixo a vida que fluía de cada pedaço de papel.

Outras estações sucediam, e o suor,

- que o sol impunha ao verão –

borrava a visão e talvez fossem lágrimas de um verão de transição, de mudanças,

que há anos lhe espreitavam a existência,

sorrateiramente disseminando a necessidade de intervir.

Outros papeis e outras viagens

rolavam atiçados pelo sopro quente

e a urgência em tomar a vida de volta,

deixar para trás as angústias de sempre

O sol ... queimava sua alma.

Mesmo estando à sombra sentia

o sangue do sol gotejando pela testa.



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30-31/01/2011

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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Luas de verão

Clive Head


Nas horas que a lua crescia, o asfalto assemelhava-se a estradas escorregadias que levavam ao encontro de si mesmo. Apesar da claridade que proporcionava, na verdade não conduzia a lugar algum. Não se tratava de destino, era o caminho que sangrava de uma dor – ausente – de prazer fortuito, impossível e inconfessável. Segue o sol se sentindo lua e seguia a trilha, achando que era avenida. No desencontro entre sensação e realidade, observava os próprios passos e as pegadas alheias à frente e ao lado. Perseguia um rosto que se desmanchava tal e qual um relógio de Dali. No líquido que vertia, desvendava mistérios nas imagens fundidas ao asfalto derretido. Por agora, apenas a escuridão afagava os pensamentos acalorados de verão sem mar e de lua opaca, quando o sol somente permitia ficar suspenso por um fio, quarando a imaginação.

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19/01/2011
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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Aromas e imagens do passado


Ao acordar os cheiros tomaram-na de assalto. Levantou-se da cama com os sentidos no passado e caminhou pela casa vazia buscando os sons e as imagens que combinassem com os aromas que dominavam o ar. Pela fresta da janela viu a luz do sol que já aquecia lá fora. Lentamente entrava e saia dos quartos, sala e cozinha. Tanto buscou na lembrança que logo surgiram os sons de risos e conversas animadas e todas aquelas pessoas do passado sentadas à mesa, esperando o café que a senhora coava sobre o balcão da pia. Sentiu o calor e o cheiro da comida que assava no forno, pois a ceia da noite sempre começava a ser preparada no início da manhã, no dia da festa. As conversas eram sempre agradáveis a esse horário, todos contavam alguma aventura ou uma palhaçada qualquer que fizesse todos rirem alto. Havia muito a ser feito até à noite, mas o café da manhã talvez fosse o momento mais sublime daquela reunião de família. Faltavam poucas horas para um novo ano e aquelas pessoas não se encontravam com frequência, por isso aquela felicidade latejante, que podia ser sentida como a brisa fresca que nos faz fechar os olhos e respirar profundamente. Ela, ali, olhando a cena, era o fantasma que se movia por entre os que conversavam sem ser vista saboreando os sons e aromas. Tocava os rostos e as mãos que elevavam as xícaras ao ar para bebericar o líquido escuro, sentia a textura das peles sem ser sentida. Olhou no fundo dos olhos de cada um e viu um rio repleto de muitas pedrinhas roliças no fundo, como se cada uma fosse um projeto de felicidade para o novo ano. Dos seus próprios olhos rolaram lágrimas e de repente lembrou que tudo aquilo fazia parte de um sonho, de imagens do passado. Queria entrar na cena e rir alto também, mas sua saudade era mais aguda, doída e novamente aquela sensação de ser líquida foi mais forte, sentou num canto do grande banco de madeira para chorar, lançou um olhar para além da janela, o caminho na entrada da casa estava tingido de lilás do bougainville que havia plantado para lembrar-se da casa de sua juventude e foi como se as pedrinhas-do-rio-dos-olhos surgissem novamente e fizeram lembrá-la que este era somente um momento, que logo iniciaria outra etapa e novamente todos poderiam sorrir juntos. Deixou-se ficar ali, com as imagens coloridas e barulhentas indo e vindo, nem sentiu o vento que soprou e balançou as cortinas.
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Enchente

Salto de Corumbá - GO

Nadava meio desajeitada, braços e pernas sem sincronia. Vez por outra deixava-se flutuar, assim descansava e, sofregamente puxava o ar, lábios cianóticos aspiravam em busca de oxigênio. Os olhos fechavam e abriam em desespero, tentando enxergar a margem oposta.

Inútil.

Sentia a correnteza carregando-a cada vez mais para adiante. Seguindo o curso não chegaria ao outro lado, talvez despencasse num salto que desvendaria um volume ainda maior de água, que por fim a levaria ao mar.

Ao lado dela um galho de árvore seguia sem resistência. Pequenos olhos se esticaram próximo dali e a cobra d’água pareceu desdenhar da sorte daquele ser que se debatia. De verdade não sabia se queria resistir à força que a levava cada vez mais distante do seu destino. Mesmo porque esse destino fazia questão de ignorá-la e se ignorava não existia. E não existindo, suas palavras não ressoariam e sua sede não seria saciada. Foi sendo levada por mais alguns metros até que retornou ao nado torto, buscando o improvável destino.
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terça-feira, 12 de outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

de janela e olhares


***

andava sem rumo

era como uma folha

que flanava ao vento

e que qualquer hora iria descansar

em lugar desconhecido

erguia os olhos para observar

os antigos prédios e suas janelas

as janelas sempre lhe fascinaram

e nem sabia o porquê

janelas guardam e mostram intimidades

janelas protegem da exposição completa,

mas sugerem um horizonte

Por agora, as janelas, com seus vidros embaçados

de pó e fuligem,

protegiam dos monstros que lhe habitavam

uma dor de saudade

atirou uma pedra e estilhaçou seu olhar

que vazou em um milhão de gotas ensanguentadas


* a foto é minha

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quinta-feira, 16 de setembro de 2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Era noite, talvez dia...



Era noite, mas talvez dia.
Pois as noites e os dias não mais se diferenciavam.
Não dormia.
Ou pelo menos imaginava que não dormia.
Sendo assim, não descansava.
E tinha uma penumbra, que não cessava.
Penumbra nos olhos.
Ou talvez no espírito, meio atordoado que andava.
Era vagar por terrenos não sólidos, mas queria o solo,
Que fizesse sentir além daquela fluidez translúcida.
Pensar, pensar, pensar.
A ordem da vez era pensar.
Mas todos os pensamentos eram emaranhados de seda,
ao puxar um deles... arrebentava.
Puxava o próximo,
e o próximo.
Sem nem mesmo concretizar a vil existência.
Era noite ou era dia?
Nem sabia.
Somente pedia para acordar do sonho,
ou do pesadelo da pesada existência.
Queria viver livre e
leve.

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* A imagm eu peguei no Google Imagens. A poesia foi um parênteses na minha ausência, para inaugurar mais um template idealizado e realizado pela Layla Lauar, a grande responsável pela existência do Sopros. Sinto saudades dos amigos, mas os compromissos me aprisionam.
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quarta-feira, 21 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Imagens e melancolias

Os dias são quentes e os sabores se perderam numa sensação de “sem-paladar”.


As imagens embaralham e me curvo no cansaço dos dias sem fim.


Os dias não tem fim e os pensamentos são como passos largos, correndo.


As passadas são mais longas e paralisam-me num suor de febre sem calor,


O calor que molha, mas não encharca o suficiente para lavar as saudades que insistem em enlouquecer.


Os sons prometem luz para dias que mostram sorrisos sempre pálidos.


Grito num cano de esgoto esquecido na rua - no mesmo cano que o homem sentou para fazer a fotografia -
e todos os monstros que adormeceram dentro de mim saem e deixam um buraco no meu peito.

Aspiro o ar profundamente na tentativa de recompor meu ser e seguir na ponta da vida,


Que nem se importa com aquele sentimento de profunda solidão que tomou conta do meio do meu dia, quando todos sorriam do outro lado.
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Sobre a imagem: peguei no Google Imagens, se souber autoria me avise nos comentários.
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sexta-feira, 9 de abril de 2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tangida pela vida

John William Waterhouse - Ophelia


E se assim vivi,

pois é assim que se vive

quando nem se tange a vida,

e dormi, sobretudo quando me atordoava

a fúria louca da busca,

que entrelaça meu querer

num pulsar completamente

estranho

correndo e navegando

voltando e mergulhando

num sopro sôfrego

que inala verões findos

que levaram um amor

de papel marchê
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sábado, 3 de abril de 2010

sábado, 3 de abril de 2010

Reminiscencia de verão

Imagem da internet


Título alternativo: Febre em noite clara.

Noite clara e quente. A lua, em sua face mais brilhante, se enchia luminosa. Os barulhos silenciosos preenchiam a madrugada. Um ou outro som de motor, do solitário veículo e seu motorista, que rodavam na noite em busca de consolo para sua alma angustiada. Era verão e como de hábito, todos escapavam para se refugiar junto ao mar, no litoral. A cidade era dos errantes, dos solitários, dos melancólicos, dos perdidos, dos desprovidos. Mas também era o momento de aproveitá-la na sua plenitude.

Rolava na cama sem conseguir dormir, tentado identificar os silenciosos ruídos. Em vão, pois a cada tentativa, menos audível ficavam. Somente os sons da sua própria mente é que gritavam alto e a impediam de descansar. Resolveu tomar uma ducha fria, que talvez espantasse o calor e seus fantasmas para o além. Deitou o corpo molhado na cama e tentou adormecer. A lua invadiu o quarto com sua luz, penetrando pela fresta da cortina, que fechara para simular uma privacidade solitária que não almejava.

A luz fria e branca fez com que se sentisse acompanhada. A lua – diziam – era companhia dos loucos, dos poetas e solitários. Talvez tenha sonhado, mas era bem possível que estivesse mesmo era enlouquecendo, pois sentiu a presença de um ser se materializando naquele instante. A lua pareceu como um ente com quem podia conversar e falar sobre suas angústias, sobre os gritos que atormentavam sua mente solitária. Por quanto tempo teria ficado ali, deitada e sentindo o feixe branco como se fosse uma deusa que pudesse realizar seus desejos? Não poderia quantificar, somente se deixou ficar e nem o calor mais a incomodava.
Conversou com a lua e fez um pacto: ela lhe traria o amor com o qual sonhara, que alimentaria sua alma e se banharia no seu corpo. Corpo e alma preenchidos por esse amor, navegaria pelos mares calmos ou agitados da existencia, sem temer a solidão que outrora lhe afligira. Em troca contemplaria a lua em todas as suas fases, pois é verdade que o astro estaria no céu a fitá-la com generosidade, mesmo quando só mostrava sua face escura e todos os seres esqueciam sua existencia.

Não sentiu-se adormecer, mas ao abriu os olhos já existiam ruídos e uma efervescencia no ar. As crianças da vizinhança gritavam e riam festivamente na rua. Levantou ainda tonta da cama e foi à janela espiar. Era dia e chovia. A correria barulhenta e a energia que emanava lá debaixo enfim sossegou sua alma. Olhou para céu buscando a lua, somente por sabê-la no infinito. Vestiu uma roupa e desceu para tomar banho de chuva. Correu e gritou e brincou com os pequenos, sentindo momentaneamente que a solidão se esvaia e sua febre cedia.
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domingo, 21 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Tempestade

Peguei na internet


De repente o céu tornou-se cinza. A rapidez como aconteceu lhe deixou perplexa e, um sentimento estranho também se insinuou dentro dela. Abriu a janela do apartamento para sentir o vento forte e olhar os blocos de chumbo que se formaram no céu. Pareciam sólidos. Debruçou-se no parapeito da janela e começou a observar a sutil movimentação que se seguiu ao escurecimento da tarde.

Nos apartamentos dos prédios ao redor do dela, um rapaz que segurava uma caneca, e também olhava o céu, abriu a janela para sentir o vento; na varanda uma mulher fechou a porta para impedir que vento e chuva invadissem a sala; a moça do andar de baixo pressentiu sua presença e esticou a cabeça para fora e para cima; uma cortina tremia lá longe, como uma bandeira. E os poucos carros que estavam na cidade naquele derradeiro fim de semana de verão transitavam apressados.

Naquela tarde de domingo nem o cheiro de bolo assando - em algum lugar ali perto – lhe fez sentir-se feliz. Os grossos pingos de chuva começaram a cair das nuvens de chumbo acima da sua cabeça e ela deixou-se ficar na varanda sentindo o rosto molhar. Queria mesmo que aquela água lavasse sua alma e seus pensamentos, gostaria que a força demonstrada por essa tempestade pudesse romper o ciclo de melancolia que novamente se instalava nela. O corpo tremia de pensar que tudo se repetia de forma insistente: o encontro, a paixão, um novo querer, o apego, o cuidado, o carinho e o abandono. Sem novidades no seu destino, se apegava a delicadeza de instantes como aquele, quando a natureza mobilizava muitos aparentemente-diferentes para admirar sua força. Todos se encontraram em suas janelas para sentir o vento na tarde quente de domingo, e todos puderam perceber certa solidão uns nos outros. E se esse mesmo vento pudesse mais tarde trazer más notícias, naquele momento ela se sentiu acalentada e acompanhada por outros tantos seres que podiam estar aguardando um acontecimento como aquele para levantar e o olhar para fora do seu pequeno mundo.

Inconscientemente parou de sofrer, suas roupas já estavam molhadas e se chorou realmente não percebeu, mas sentiu que estava leve. Resolveu que os sentimentos pessimistas que sentia até a pouco seriam levados pela água, escorreriam pelos ralos, para que pudesse iniciar o ano com vontade de viver novas emoções, sem medo do que pudesse vir no futuro, sem desacreditar que pudesse amar de novo e ser feliz com esse amor. Lembrou do cheiro do bolo. Respirou fundo e foi como se sentisse o sabor de bolo quente na boca.
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segunda-feira, 12 de outubro de 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Desobediência

Imagem: Poenies - Jia Lu


***

Você corre
O Coração...
...ah! o Coração!
Ele lhe diz que avance sinais,
Que pule obstáculos,
Que supere barreiras
Ele pulsa forte, grita que quer,
Lhe instiga e desobedece suas ordens,
Ele insiste, contradiz,
Embaraça seus sentidos,
Ignora seus pedidos.
Você se esconde, se protege,
Se defende,
e Ele...
...Ele não tem ouvidos
aos seus apelos!!


***
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Conto, não conto!

Imagem: internet

***

Maria era uma moça cheia de sonhos. Sonhava dormindo e sonhava acordada. Naquela tarde, saiu do trabalho para pagar umas contas para o chefe. Caminhava pela rua e balançava o guarda-chuva, pensando em como seria bom sair dançando e cantando. Lembrou da música e cantou mentalmente: I'm singing in the rain/Just singin' in the rain…

Sorriu ao pensar nisso e imaginou que quem passava ao seu lado podia bem imaginar que era louca. Era louca sim, era louca para ser feliz. Pudesse espantava tudo de ruim que tinha na vida e só... sonhava.

Seus muitos sonhos ela contava, outros pensava: conto? Não conto! Conto! E não conto. Alguns simplesmente tinha medo de exteriorizar.

Ela sabia que nem sempre seus desejos se realizariam, mas às vezes não sonhava para que se realizassem. Era simplesmente por gostar de sonhar, só isso. Queria um mundo melhor, pensava sempre e primeiro nos seres humanos e via um mundo onde todos fossem iguais, todos gostassem de gente e onde as diferenças eram olhadas como uma forma de beleza e não de suspeitas, cuidados, perigo, ameaça. Acreditava que, no momento em que todos os seres humanos gostassem de gente, seria mais fácil respeitar e conservar o mundo para as próximas gerações.

Esse sonho ela tinha certeza que não veria, mas acreditava possível. Afinal...sonhava!

Ansiava pelo equilíbrio, sem ser extremista em nenhum aspecto, mas tentava ser coerente com seus sonhos, respeitando tudo e todos. Procurava não ser daquelas pessoas que erguem bandeiras por muitas causas, mas saem consumindo marcas, etiquetas e rótulos.

Pensava tudo isso enquanto caminhava e rodopiava o guarda-chuva. De repente os olhos de Maria brilharam: viu um objeto lindo e caro numa vitrine. Não sentiu vergonha do desejo que se apossou dela: desejou algo que lhe era impossível. Esse era um daqueles sonhos que Maria não contava, pois não os queria realizar, ela os tinha guardado como tesouros e só de vez em quando abria a caixinha dos sonhos para admirar. Não os queria de fato, os tinha como seus tesouros-enrolados-em-papel-de-seda. Os possuía – sonhos e desejos – guardados no fundo do baú da mente.

Então Maria tinha esses sonhos, esses de não contar. Outro era sobre um certo homem... Conto ou não conto? Não, não conto. Essa é outra história e se for possível, um dia eu conto...

***
[Aproveito essa postagem para agradecer os selos que recebi da Pamela Rodrigues (Blog Eu e Minhas Letras), Thania (Arte Imita a Vida) e da Cintia (Opinião Consciente). Obrigada, adorei a lembrança.]
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domingo, 6 de setembro de 2009

domingo, 6 de setembro de 2009

De alegrias e de dores...

Imagem: internet


Há dias em que sou destemida, como Dom Quixote, enfrento todos os fantasmas da mente e corro, e luto e sou forte. Há dias que ser destemida dá a sensação que tudo vai dar certo e que tudo é belo. É nesses dias que o céu é mais azul, que a chuva é mais poética e embala meus sonhos de amor possível. É nesses dias que levanto, abro o guarda-roupa e escolho a roupa mais bonita e ilumino o rosto para sair, como quem usa as ruas como passarela de dança e dança ao caminhar, sorrindo e achando que nada pode ser ruim ou que tudo pode vir a ser melhor.


Há dias em que mesmo o sol brilhando são lágrimas que escorrem do meu rosto e embaçam o meu olhar para o mundo. Sem poder enxergar muito bem, não vejo luz, nem céu azul, nem distingo esperança. A chuva é um barulho que tortura. Nesses dias qualquer roupa serve, sair de casa é um tormento e os fantasmas que habitam nossos pesadelos assustam, como quando se é criança e temos medo do escuro. Nesses dias ficar abrigada pelas cobertas é uma fuga possível.


Há dias de solidão, há dias que pesam os dias. Mas sempre há dias para lembrar que nada dura para sempre, que tudo pode passar...



[Um pedido de perdão, aos amigos, pela ausência, ando sem tempo e sem criatividade, como podem perceber pelo texto de hoje. Não consigo mais a frequencia de outros tempos. Tempo! Que vai, que não volta...]
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sexta-feira, 31 de julho de 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A outra janela

Imagem: Edward Hopper - Night Windows


***

No apartamento da outra janela, o rapaz que ali morava, chegava quase sempre às dezoito horas. Ele sempre conseguia fugir do engarrafamento e descansar um pouco antes de sentar à mesa para escrever. Isso acontecia quase todas as noites. Saia pouco, e principalmente nas sextas e sábados.

Trabalhava numa livraria pequena, dentro de um museu, que vendia apenas livros de arte, culinária, turismo e materiais de escritório sofisticados. Excepcionalmente tinham alguns livros de poetas clássicos. Ele costumava dizer que era o emprego dos seus sonhos.

Apesar de passar várias noites escrevendo solitariamente, ele conhecia muitas pessoas, o trabalho fazia com que encontrasse entre os clientes, amigos que eventualmente se encontravam para falar sobre assuntos de interesse comum como literatura e arte. Era uma pessoa interessante, se não era belo para os padrões estéticos contemporâneos, tinha um rosto com traços marcantes e uma beleza peculiar, que era acentuada pela conversa incrivelmente encantadora. Fazia muito sucesso com as mulheres, apesar de ser um solitário por opção. Ao contrário da moça da janela, ele acreditava em amores eternos e aguardava ansioso pelo momento de um (certo) reencontro definitivo. Enquanto isso não acontecia, preenchia seu tempo escrevendo romances, poesias, tendo relacionamentos superficiais com algumas das muitas mulheres que se encantavam por ele.

A mesa que sentava para escrever – aliás, ele gostava de escrever da maneira antiga, com lápis ou caneta - ficava próximo a janela ampla de seu apartamento. De lá, um dia notou outra janela, de um apartamento que ficava na rua perpendicular a sua. A visão era ampla e viu uma moça parada, olhando na sua direção. Fingiu que olhava para outro local, mas a partir desse dia começou a acompanhar discretamente a rotina da moça. Gostava de imaginar o que ela pensava dele e tinha muita curiosidade sobre aquela moça solitária, que como ele passava muitas noites em casa.

Naquele dia, a moça não apareceu, as cortinas não se abriram completamente. Ele via a luz da televisão, mas não a via. Dispersou completamente dos seus escritos e pensava o que ela estaria fazendo. Foi despertado dos seus pensamentos pelo toque do telefone, no mesmo momento em que, do outro lado, a moça pegava o livro de Caio Fernando Abreu.

Do outro lado, ao telefone, a voz manhosa de uma mulher de cabelos lisos e dourados, magra e alta e muito, muito falante. Eles se conheceram na livraria e logo se entenderam, ela se encantou por ele. E ele, se encantou com o modo como ela chegava dominando todos os espaços e ainda assim, encantada por ele. Era uma das amigas com quem mais gostava de estar e sentia falta de seus momentos intímos, quando por algumas vezes ela desaparecia para cuidar dos seus muitos compromissos sociais.

Já fazia algum tempo que não se viam. Ela tinha acabado de chegar de uma viagem por alguns países da Europa e ligou para conversarem. Ele se esqueceu da outra janela e ao desligar o telefone, calçou rapidamente um sapato, pegou um casaco e foi ao encontro daquela mulher que lhe fazia esquecer o cansaço dos seus dias solitários.

Enquanto ele descia pelo elevador, a moça lá do outro lado, olhou pela janela, o perdeu de vista e foi dormir, controlando os estranhos sentimentos que se apoderaram dela. Enquanto ele bebericava vinho, ela sonhava que era criança e brincava de roda com mais um monte de outras crianças. O sorriso que iluminou seu rosto dormindo, clareou o quarto escuro. Logo seria dia e tanto ele quanto ela poderiam retomar suas rotinas. Ou ter mais uma oportunidade modificá-las.

***
Aceitei a sugestão da Minnie (Blog 1 Momento Só) e dei continuidade ao post anterior, mas como isso é complicado, fico por aqui mesmo. Sem continuações outras. Obrigada pela sugestão, Minnie.
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quarta-feira, 22 de julho de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Insônia e solidão

Getty imagens - internet


***


A moça estava sentada no sofá e olhou a sua volta: o livro esquecido na cadeira, a televisão sem som que mostrava mais um daqueles programas chatos de todos os dias. Olhou para a janela e vislumbrou a noite e as luzes lá fora. Conteve mais uma vez o impulso de ir olhar através dela e tentar enxergar o rapaz que ficava escrevendo, sentado próximo à sua própria janela no apartamento ao longe, mas não tão longe que não pudesse lhe acompanhar a rotina noturna.


Chegava em casa sempre próximo das vinte horas e ele, lá do outro lado, saía do quarto, organizava coisas em cima da mesa, buscava uma jarra com água e um copo, que depositava junto aos livros e papéis. Sentava, abria um livro, lia alguns trechos e depois escrevia por horas.

Acostumou-se a olhar a cena. Fazia suas tarefas com a cortina aberta e quando terminava tudo, ficava lá, parada. Era uma forma de companhia observá-lo, ela que muitas vezes era tomada por uma sensação de imensa solidão. Deu-se conta que isso virava um vício, acompanhar e imaginar as muitas histórias que aquele rapaz devia escrever – essa era sua fantasia. Aquele dia resolveu que não se aproximaria da janela. Iria ler um livro, ver um programa na TV, qualquer outra coisa. Entretanto, nada conseguia prender-lhe a atenção. Tinha vontade de encontrar o rapaz e conversar com ele, contar todas as suas impressões da vida e saber se era realmente um escritor, pois sabia que eles se dariam muito bem, conversariam como se conhecessem há tempos. Mas não tinha coragem para isso, contudo pensava no quanto perdia olhando o tempo passar.

Analisar a vida e os sentimentos era seu passatempo predileto. Acordava cedo, e entre caminhada, metrô e ônibus, demorava até duas horas para chegar ao trabalho. E era nesse momento que pensava na sua solidão, na das outras pessoas; olhava para cada rosto que passava e tentava imaginar suas dores e felicidades, mas tinha talento especial para imaginar a dor. E cada fisionomia contraída doía nela e, não raro, lágrimas indiscretas corriam de seus olhos, pois a dor alheia potenciava a sua própria.

Talvez se alguém a olhasse como ela olhava os outros, desvendassem sua solidão, mas não via ninguém olhá-la, muitas vezes sentia que podia entrar e sair dos lugares como se invisível fosse. Um olhar atento perceberia que aquele sorriso sempre aberto, não era acompanhado pelo olhar, que parecia buscar no além alguma emoção perdida.

Pensava nos amores, nas paixões, imaginava como seria um grande amor correspondido. Não acreditava muito naquele amor imortal que lia nos livros, tinha dificuldade de imaginar que os amantes pudessem se encontrar na mesma sintonia, mas não discutia isso, afinal, era simplesmente a sua impressão e podia estar distorcida por acontecimentos do passado. Se ela sonhava com um amor? Sim, sonhava! Mas era bem despretensiosa, quase distraída no seu querer. Seu amor não precisava ser ilimitado ou imortal, mas precisava de carinho, de respeito, de compreensão, de afago e afeto, de honestidade. Ao definhar o amor, saberia que tinha se entregue por inteira e vivido por inteiro sua emoção, sem máscaras.

Seguia sempre seu caminho com esses e outros tantos pensamentos. Ao encontrar o rapaz da janela, teria com quem conversar sobre seus sentimentos e queria ouvir os dele também. Talvez um escritor necessitasse dessa solidão, talvez não fosse um escritor, talvez não fosse solitário. Somente tinha uma "quase-certeza" que precisavam conversar e tinha medo que não acontecesse, que o tempo passasse e perdesse a oportunidade de encontrá-lo e todo o enredo criado nas longas noites à janela teriam sido em vão.

Naquela noite, não foi até a janela, pegou o livro que jazia na cadeira, abriu em qualquer página e coincidentemente [na verdade não, deve ter aberto nessa página de tanto que buscava aquelas frases] leu nela o trecho sublinhado a lápis de Para uma Avenca Partindo, do Caio Fernando Abreu, que mais gostava:

...deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim dum jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira...em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço...

Enquanto lia isso, novamente sentiu dor no peito, um aperto enorme, não sabia o quê aquilo queria dizer, ou sabia e não queria saber. Largou o livro e foi espreitar a janela. O rapaz não estava mais lá, o tinha perdido de vista, as luzes apagadas. Sentou e tentou não sentir desamparo, respirou fundo, organizou seu próprio espaço como se assim organizasse pensamentos e sentimentos, guardou o livro na estante e foi deitar, desejando que no caminho para o trabalho pudesse acontecer algo inusitado, que lhe fizesse sorrir com os olhos. Tanto lutou que não sentiu desolação e dormiu sorrindo as poucas horas que restavam antes da alvorada.


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