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quarta-feira, 9 de maio de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Saudade!




Hoje senti uma saudade da época que o blog era a principal "rede social"!!
Cada dia que passa sinto o tempo correndo e até acontecimentos relativamente recentes, são "passado".
Isso é vida, mas é sempre "estranha" a adaptação!
Tudo é muito rápido e quem é, ou quer ser, mais lento não se enquadra e por isso a saudade.
Saudade dos amigos que fiz aqui e hoje nem sei mais por onde andam.
Saudade!!
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Estrelas no pensamento

EMBRACE - Jia Lu [Pintora chinesa] - Se quiser ver mais AQUI


Olhe, veja em volta. É noite, nenhuma luz acesa, a lua crescente se escondeu atrás da única nuvem e apesar disso, à nossa volta tudo brilha. São tantas estrelas salpicando o céu, que parece uma chuva de purpurina. Como no dia que olhávamos os fogos de artifício sobre nossas cabeças e seguraste minha mão gelada. O sopro de vento que despenteou meus cabelos e fez minhas roupas levitarem suavemente, produziu um arrepio na minha pele, mas o calor morno dos teus dedos, apertando suavemente os meus, acendeu um carinho que inundou meu corpo inteiro.

Foram dias felizes, mas fulgazes. Queria te ter sempre ao meu lado, segurando e aquecendo minhas mãos. De lá até aqui, nossos dias foram de encontros e afastamentos, nossos caminhos não se encontravam, mesmo que eu sempre buscasse formas de ter ver, te ter, te sentir. No meu peito sempre pulsava um bem querer, que alimentava a esperança de um encontro definitivo. Nos meus dias, pintava na imaginação o momento que, enfim, seríamos dois e não um em cada lugar. A pintura desse sonho, gravada na memória, tinha o brilho desta noite estrelada.

Hoje, o som das ondas - atirando-se insensatas contra o rochedo - é a única canção que conseguimos ouvir e o teu corpo o único cobertor que quero sentir envolver a nudez do meu. Levarei para a eternidade o sabor do teu beijo e o calor que agora me faz estremecer, ao olhar teus olhos sonolentos. Se eu dormir, quero sonhar que tudo vai permanecer assim, para sempre.
***
Não sou escritora, apesar de não poder negar a pretensão, já que fico escrevendo "coisas" aqui no blog. O texto acima, apesar de estar na primeira pessoa, não é uma "experiência pessoal", e sim um simples exercício de escrita e ficção.
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Percorrendo caminhos e estações

Boreas - John William Waterhouse - 1903



As estações do ano lhe traziam diferentes sensações. No inverno buscava o fogo que aquecesse sua alma. No verão, tudo que mais desejava era uma brisa que abrandasse o calor e aquietasse seu coração. E a cada vontade ou desejo, o corpo ia respondendo igualmente aos seus anseios.

Nos primeiros dias outonais, tentava imaginar alegrias e prazeres, mas a melancolia apoderava-se dela e aprisionava seus pensamentos. Exercitava visualizar dias felizes, passados nas estações anteriores para conservar um “melhor-do-bom” que havia sentido. Imagens povoavam sua mente, sons e vozes dissipavam a dor e transformavam as recordações em sentimentos inexplicáveis, subterfúgio para o amor, invenções para a vida.

Buscava atalhos ou percorria longos caminhos para fugir do sofrimento. Sentia vontades, vontades de viver emoções inusitadas, ansiava por um carinho que nem sabia qual era, mas que não se comparava com o que já havia vivenciado.

As estações mudavam e as lembranças iam se diluindo, como se outra pessoa tivesse vivido aquelas lembranças. Na transição, acordava como de um idílio e repensava a vida para se reinventar uma vez mais.

Num dia, dobrou a esquina, olhou para o céu e viu uma nesga de lua, crescendo. Encarou a longa e larga rua, pisou firme, lá adiante poderia ter mais um atalho.
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domingo, 5 de abril de 2009

domingo, 5 de abril de 2009

Aromas e sentimentos

[Memory of that house (2001) - Iman Maleki - pintor realista iraniano - vale muito conhecer suas obras - Aqui ]


Sozinha, vinham no seu sentir, uns aromas que lhe remetiam ao lugar onde queria estar. Talvez no passado, que nunca existiu. Ou num futuro, que jamais aconteceria.

Um aperto no peito lhe enchia de tristeza e respirava mais fundo, no intuito de que o cheiro lhe transportasse ou que esquecesse os sonhos que não se tornariam realidade.

Insistia num viver morno, mesmo querendo fogo ardente. Mas sempre compunha a vida com equívocos e por isso talvez fosse difícil imaginar um abrigo que acalmasse o coração.

Sorria tristemente por esses pensamentos e rápido imaginava outro sentir, que afastasse o aroma que lhe deixava tão sensível.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Delírios

Singing Fish - Miró



[Definitivamente devo andar delirando. Sem muito que escrever no blog, escrevo delírios. Perdoe-me quem ler as bobagens]


No principio um azul, de verdade não era uma cor.
Deslizando o pincel se tornou um cinza. Não confundir com dor!
Piruetas e estilhaços - se formou um marrom e bebida não inventou.
De repente, bum! Uma infinidade de tonalidades de encarnado, só que não sangrou.
O amarelo se insinuou com um pinto quebrando o ovo e não emitiu sequer um som.
Quem lambuzou o verde? Mas nem germinou!!
Para onde vai me levar o delírio, ainda não descobri. É uma infinidade de possibilidades no que sinto. Agora simplesmente não quero cor. Quero o calor para me representar! E um pouco de som. E minha viagem se completando fora de órbita. Sequência? Que sequência? Não há sequência. Eu quero correr e se gritar não há porque se espantar.
A cor se mantém, quero cantar. E porque não... pintar?
Os estilhaços do marrom arrebentaram o vermelho, jorrou sangue, que tingiu o cinza e se espalhou como gema. Socorreu o azul evitando a hemorragia definitiva. Soprou um vento e sacudiu o verde.
O coração - cansado - se quietou e gelou.
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domingo, 29 de março de 2009

domingo, 29 de março de 2009

Alucinação

Summer interior - Edward Hopper (1909)



Naquela noite fora dormir bem mais cedo que de costume. Dormia pouco, no máximo seis horas, quando a maioria das pessoas que conhecia, não podiam dormir menos que oito. Mas não poderia ser rotulada de insone, dormia. Vinha de um cansaço que não saberia explicar. Acabara de voltar de férias, que sempre lhe deixava com vigor para uma nova temporada de trabalho árduo. Gostava do seu oficio, então não entendia esse cansaço profundo que vinha sentindo.

É verdade que esse ano o escritório estava fervilhando: relatórios, processos e aqueles telefones que não paravam de tocar. O tempo continuava quente, o outono demorava a se instalar para refrescar seus dias. Perscrutava cada um dos fatores em sua rotina que pudesse estar lhe causando esse desconforto interno, seu cansaço, sua tristeza. Gostava de entender tudo. Sofria e vivia. E queria entender.

O certo é que acordou no meio da noite como se já fosse dia e seus pensamentos rodopiaram numa ciranda incessante. Queria se entender. Imagens e sons. Vozes e palavras. Imaginou que fosse alucinar. Tudo rodava. Havia uma porta, que estivera lá por anos e que deixava transparecer uma escuridão. Nunca tinha ousado atravessá-la... até um certo dia. No início sentiu falta de ar, depois falta da luz, mas aos poucos sua retina se adaptou ao escuro, à situação. E uma voz lhe direcionava e ia tateando aquele mundo obscuro. Não saberia descrever suas sensações: prazer, alegria, euforia, medo, dor... e, lá no fundo, uma intuição de sofrimento... queria seguir e queria voltar.

Imergiu nesses pensamentos e quando percebeu era dia. Não sabia ao certo se pensara ou se sonhara todas as imagens, sons e sensações. Um segundo e uma convicção lhe aflorou à mente: não podia confundir o sonho com realidade, sua dor e cansaço talvez tivessem origem nessa confusão. Decidiu levantar. Tomou nas mãos poesias, enrolou-as em papel de seda azul e vermelho, abriu a porta, depositou tudo no fundo da prateleira da esquerda, fechou à chave e guardou-a junto ao coração.
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sábado, 7 de março de 2009

sábado, 7 de março de 2009

Mulher: complexo abrigo


Olhou a casa sufocada entre altos prédios. De novo sua mente fez acrobacias e ela sentiu-se meio como a casa. Uma mulher, que muitas vezes se sentia uma menina, amedrontada com as inúmeras possibilidades e desafios que a vida ia lhe oferecendo. E tinha ímpetos de ir a um jardim e ficar em companhia do vento, das árvores e das flores. Gostava do vento: do vento leve, da brisa, mas também tinha uma adoração pela ventania. As pessoas não compreendiam quando comentava que gostava de tempestades. Mas gostava e podia sentir o cheiro delas se aproximando. Entre árvores e brisa, ela sentia-se segura, acalentada, como as crianças quando se apegam aos seus amigos de pelúcia e aquilo lhes proporciona conforto. Também imaginava que era a brisa, e sendo brisa poderia ir tocar seus amores distantes.

Voltou a mirar a velha casa... sem dúvida era ela e aqueles prédios gigantes, monstros de toda espécie que tinha de enfrentar todos os dias. Era forte e resistia, mas era complexa demais e complicada demais para se explicar. Era mulher e era uma casa, e era menina e era um refúgio, e sorria e lutava quando tinha que defender suas crenças; e era rígida e era flexível. Tinha uns não-sei-o-quê que surgiam de vez em quando, que lhe deixava abatida, e não queria compactuar com sofrimento, mas era estranha, era mulher e era humana - mesmo que por vezes se sentisse como se não fosse desse planeta! Uma casa antiga no meio de muito concreto na megalópole. Mas sim, era humana e como todo ser humano cheia de “grandes-pequenos” defeitos, de “pequenas-grandes virtudes”. Sucumbia em ser... humana.

Amava e sofria por amor, e rejeitava sofrer por amor; distribuía afeto e recebia afeto, que nem sempre lhe parecia amainar a sua necessidade; sentia raiva e dizia que sentia, mas também não dizia e sofria por sentir a raiva. Quando parava para pensar sobre amor e raiva, o sentimento que permanecia nela, acima de todos os outros, era um... certo amor incondicional pela humanidade. E era por isso que acreditava, que um dia – que podia ser muito distante – a humanidade deixaria de maltratar uns aos outros. Sorria ao pensar nisso e chorava por imaginar o hoje.

Talvez fossem aqueles hormônios que deixavam a mulher, a menina, tão complexa e mesmo aquelas que não eram mães se comportavam um pouco, em algum momento da vida, como se o fossem, oferecendo seu coração e seu corpo como casa, como abrigo, numa docemente dolorosa rotina de perdas e ganhos. Olhou mais uma vez aquela imagem e sentiu sufocar, como a casa. Seguiu seu caminho, não olhou mais para trás.
***
[O dia 08 de março é considerado o dia internacional da mulher para lembrar o fato ocorrido em Nova Iorque, no qual mulheres trabalhadoras da indústria téxtil protestavam contras às más condições de trabalho e a morte de outras em um incêndio criminoso durante os protestos. Desconsiderando o sectarismo feminista, pode-se tomar esse dia como um marco histórico no caminho da mudança das diferenças econômicas, sociais e políticas entre homens e mulheres. Minha convicção é por igualdade entre pessoas, seres humanos. E é esse equlíbrio, que creio necessário].
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Fantasmas da saudade

Cena do filme A casa do Lago



Acordou meio entorpecida, tinha uma angústia dentro do peito.
Não podia ser sonho, se sonhara não lembrava.
Queria lembrar e ao mesmo tempo livrar-se do peso que apertava o peito.
Pensou no céu, um lindo céu azul – talvez isso acalmasse.
Fixou o teto e viu um rosto, sorrindo...
Apertou os olhos e quando abriu não estava mais lá...
Um fantasma no pensamento, na casa...
Na cozinha um barulho de xícaras e um aroma inconfundível de café.
Sentou-se na cama e pareceu que a dor diminuía.
Levantou, olhou na cozinha, abriu a janela, olhou o sol iluminando o vazio lá fora...
Não, não tinha nada, nem ninguém...
Entendeu que sua saudade lhe tinha pregado mais uma peça.
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Saudade


***

Tem um lugar que não conheci,
Tem um aroma que não senti,
Tem um sabor que não provei,
Tem um sorriso que não me iluminou,
Tem um abraço que não me aqueceu,
Tem um beijo que não me fez tremer,

E mesmo assim, morro de saudades disso tudo!
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sábado, 31 de janeiro de 2009

sábado, 31 de janeiro de 2009

Mares de mim

Tem uns “gostares” que a gente não explica. Um amor, um sabor, uma cor, um livro, uma música. Um dia simplesmente despertam um não-sei-o-que lá dentro de nós e pronto, fomos “tocados”. Poesia é assim, filmes também. De tempos em tempos, é uma música que se “apodera” da minha mente e por dias só ouço a mesma.

Ultimamente, quem andou aprisionando-me na mesma letra e melodia, foi um músico bem polêmico, e eu como sou cheia de “gostares’ estranhos, admiro muita coisa da produção musical dele. A música que ando ouvindo ultimamente é Mares de Ti, do Carlinhos Brown. Engraçado que o Brown mistura umas palavras esquisitas, que aparentemente não tem nenhum significado, mas aí entra a história da “viagem” que cada um faz quando ouve música, lê poesia, enfim. Mares de Ti tem esse poder sobre mim, mobiliza meus sentidos, meus sentimentos, sem nem eu entender muito bem a razão. Mas emoção nem precisa ter razão!

Procurei um vídeo no youtube, não achei. Resolvi fazer um, para colocar aqui. Virou um varal de foto com trilha sonora.


Bom fim de semana!




Trechos da Letra:

Se tropeçar meus pés cansados
Nos mares de ti
Cuidar de mim cuidar de ti
As fases e frases
desfazem nos jeans

Porque que é só você que sabe
Aonde surfir
O mais bonito do magnífico
Se teu sorriso esculpe

Solidão
A vida nos fez
Apesar de ter
Solidão...

Não sei pisar no breque
Tomo charrete
Pros lares rubis
Pensando nisso
Pensando em ti

Senti felicidade sem fim
Se for passar preciso sarar
É quase inútil
Ficar de ir
Ficar de vir
Ficar feliz isso sim

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Carta 2: Esperança e ano novo!

Peguei na internet
Queridos amigos Ana e João,

No fim do ano sempre sinto um enorme saudade de vocês. Em meio às comemorações de fim de ano, tirei um tempo para escrever essa carta e desejar a todos vocês um ótimo 2009.

Vocês sabem que acima de tudo sou uma pessoa esperançosa, por isso creio que sempre vamos melhorar. Não sou muito de compactuar com aqueles que dizem que o passado foi melhor que o hoje ou que eu era feliz e não sabia. Eu fui feliz sim, mas posso ser mais feliz ainda, e isso me move. Apesar de estarmos distantes, sei que vocês também estão aproveitando os dias ao lado das pessoas que lhes são caras e minha saudade é daquelas que me fazem abrir um sorriso ao imaginá-los.

Eu rezo para que as conquistas da humanidade se ampliem no novo ano. Afinal, mesmo que muitas vezes acreditemos que nada tem saída, ainda assim, avançamos nas relações humanas e sociais. Poderia ser mais rápido? Talvez, mas somos todos humanos e isso é complicado.

Pois é, não vou escrever demais, só gostaria mesmo de desejar um Novo Ano de paz, alegrias, dias tranqüilos e boas emoções - emoções de todos os matizes - para vocês, para mim, para toda a humanidade.

Desejo também que nós possamos nos encontrar logo, e vou continuar planejando isso. Um beijo para todos da família. Adoro vocês.

Com carinho,

Luciana


***

Sopro de Quintana – Esperança

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...






***

Desejo a todos as pessoas que estiveram no Sopros de Lis em 2008 - foi um prazer conhecê-los e a convivência. O único balanço que desejo fazer hoje, é a perspectiva de dias ainda melhores. Que seus dias, no novo ano, sejam repletos de Esperança.

[Agradeci os votos no halos de baixo]

Meu carinho!
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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Fogos de Artifício e Poema de Natal

Peguei na internet

Fogos de Artifício
Olhou para o céu e viu a explosão de cores. Fogos de artifício. O período natalino era sempre especial, pois quase todos os dias ele podia ver os fogos e lia a programação da cidade para não perder nenhum espetáculo.

João havia morado na rua na infância e já nem sabia como tinha ido parar lá. Lembrava somente do dia em que a aquela mulher, com olhar bondoso, perguntou a ele se não gostaria de passar o Natal em sua casa. Devia ter dez anos, e quando entrou naquele “abrigo”, percebeu que a vida podia ser melhor. Uma linda árvore de natal na sala, toda confeccionada pelas crianças que ali moravam. Um sonho aquelas luzinhas. Queria ficar e ia fazer o que fosse necessário para isso.

Na noite de natal, todos foram para a rua olhar o céu e ver os fogos. Tantas cores, tantas formas, sorria e chorava, chorava e sorria. Ele nunca experimentara aquele aperto no coração, que ao mesmo tempo em que doía lhe proporcionava bem estar. Para sempre, aquelas luzes iriam brilhar nos seus olhos e seu coração sempre sentiria a mesma sensação, pois estava aprendendo o que era felicidade, quando a senhora de olhos bondosos, segurou sua mão e assistiram assim, a queima de fogos.

Hoje, olhando o céu, lembrou da música que diz Papai Noel vê se você tem a felicidade para você me dar, percebeu que, para ele, Papai Noel existiu e lhe foi muito generoso. Segurou a mãozinha da filha e abraçou a esposa, queria sentir o calor das duas para admirar os fogos e sentiu-se criança novamente, e sorriu e chorou. Era um privilegiado e agradeceria “ao céu”, enquanto estivesse vivo.

*Pode parecer meio piegas, mas adoro fogos de artifício e para falar sobre o tema, somente me veio essa historinha na mente.

***

Sopro de Vinicius de Moraes - Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
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quinta-feira, 27 de novembro de 2008

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Poucas palavras

Chuva e janela


Não tem jeito, cada vez que sento para escrever alguma coisa para postar, só sinto um imenso vazio. Difícil não conseguir dominar as palavras, pois tem um monte “coisas” gritando dentro de mim. Umas saudades, algumas pessoas, algumas sensações, alguns lugares...todos e tudo ao mesmo tempo, gritando e gritando. Mas meu tempo não tem sido tranqüilo e dessa forma meus pensamentos só me parecem um grande emaranhado de idéias e angústias.

Uma hora dessas a tranqüilidade volta...

E quando não encontro socorro em mais nada, ao menos Clarice Lispector me socorre, com palavras que foram “pescadas” aleatoriamente - em um livro que foi muito significativo num determinado momento da vida. Os escritos dela atravessam o tempo e servem de consolo para a minha falta do que dizer e dizem por mim.

***

Sopros de Clarice Lispector
...
A vida oblíqua? Bem sei que há um desencontro leve entre as coisas, elas quase se chocam, há desencontro entre os seres que se perdem um dos outros entre palavras que quase não dizem mais nada. Mas quase nos entendemos nesse leve desencontro, nesse quase que é a única forma de suportar a vida em cheio, pois um encontro brusco face a face com ela nos assustaria, espaventaria os seus delicados fios de teia de aranha. Nós somos de soslaio para não comprometer o que pressentimos de infinitamente outro nessa vida de que te falo.
...
(Água Viva)
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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Feira do Livro em Porto Alegre... parte 2

Título alternativo: Sopros da Instalação sobre Gilberto Freyre



Como evento complementar à Feira do Livro de Porto Alegre, está acontecendo uma instalação – digo isso, pois é mais que uma simples exposição – sobre a vida e a obra do intelectual pernambucano Gilberto Freyre. Algumas das informações deste post foram retiradas do material de divulgação entregue no local.

Gilberto Freyre foi sociólogo, político, poeta, contista e pintor. Talvez sua obra mais famosa seja Casa Grande e Senzala, considerada uma obra clássica e revolucionária da sociologia brasileira. Integrou um movimento de valorização da cultura popular conhecido como Centro Regionalista e dirigiu a Semana Regionalista, que foi uma resposta nordestina à Semana de Arte Moderna de 1922 [aquela que todos estudamos e que tem como representantes mais “comentados”, Oswald de Andrade e Mário de Andrade]. Em uma rápida busca na rede, é possível encontrar textos mais qualificados, que o meu, sobre o autor.


O Local: o Santander Cultural é um prédio histórico, localizado na Praça da Alfândega, e abriga um espaço de cultura belíssimo. Lá é possível ver uma exposição, assistir um show ou um filme, além de ter uma livraria muito charmosa, na qual é possível encontrar livros ótimos. Eu vi uns sobre fotografia, maravilhosos. Infelizmente não consegui uma foto, pois é proibido.

A instalação: gostei bastante da idéia, pois eles dispuseram os documentos, pinturas, fotos, livros e tudo mais, como se fosse uma casa antiga (alguma referência à Casa Grande e Senzala?). Os estandes foram montados como paredes, havia armários de madeira, gavetas presas às paredes, móveis como se fossem longas mesas, com tampo de vidro [dentro, os documentos e fotos] e cadeiras onde é possível sentar e ler tais documentos.

Ao abrir uma gaveta ou armário, estavam lá mais objetos. Um armário lotado de latas com rótulos de Assucar, título de um dos livros dele, cujo conteúdo é receitas de doces e bolos do Nordeste. E na parte de trás do rótulo as receitas de alguns deles.

Entre os documentos, cartas enviadas e recebidas - entre os destinatários e remetentes, estava Carlos Drummond de Andrade. Convites personalizados para jantares vários países da África, Europa. Por fim, expostos “nas paredes da casa” a capa de todos seus livros, pinturas, entrevistas. Posso dizer que fui e voltei várias vezes, sempre encontrava algo que não havia visto na passada anterior.




Caso a sua cidade receba essa instalação, eu indico, uma linda e merecida homenagem.

Mais um espaço do estado de Pernambuco na 54ª Feira de Livro de Porto Alegre.



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sábado, 1 de novembro de 2008

sábado, 1 de novembro de 2008

Posto que é sábado

Gravura Jenny Holm

Tenho a maior vontade de ser sempre uma pessoa otimista e alto astral [mesmo com a minha tendência melancólica], mas tem horas que é simplesmente impossível. Alguém me grita daí o motivo da necessidade que o ser humano tem em destruir?...(dasabafo)...

...enfim!

Mais um fim de semana chegou e eu estou torcendo mesmo é pelo final do ano, por muitos motivos diferentes, mas é um momento de sair da rotina e isso é muito bom para eu não entrar em surto.

Ontem havia o lançamento de um determinado livro, em uma determinada livraria aqui e eu passei sem querer por lá. Não lembro muito bem o título exato, mas o tema era o “nadismo”. Não, eu não escrevi errado, não é “nudismo”, é “nadismo” mesmo. Desculpem, mas não vou entrar no Google e procurar sobre isso. E não tenho intenção de ler o livro...

Ouvi algumas respostas do autor e pude verificar que se trata de uma experiência ou um comportamento que tentar “esvaziar” (invenção minha) a mente, não pensar em “nada”, nadismo...planejar-se para não pensar nada.

Eu bem que gostaria, mas minha mente anda cada vez mais ocupada, com coisas sérias e outras nem tanto. Aliás, eu poderia prescindir das coisas não sérias, pois na maior parte do tempo vira um incômodo desnecessário.

Quando começa assim eu preciso de férias... nada mais me consola...Nem fazer posts para esse blog. Mas espero sinceramente que vocês não estejam tão cansados quanto eu. E também não sei de que estou reclamando, os dois últimos dias foram de sol brilhante, céu azul, brisa fresca no final da tarde e muito colorido de ipês roxos e amarelos. E ainda por cima, começou a Feira do Livro na Praça da Alfândega e tem como convidado especial o estado de Pernambuco, sendo representado por Ariano Suassuna. Acho que vou lá no sábado à tarde...

Bom fim de semana.
***
Sopro de Fernando Pessoa

Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo de amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

(19/11/1935)
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domingo, 26 de outubro de 2008

domingo, 26 de outubro de 2008

Chuva, voto e domingo!

peguei na internet


Mudaram as estações nada mudou...

Essa semana, em uma das inúmeras vezes que pensei em textos para colocar no blog, me passou pela cabeça falar do tempo. E nem trabalho com meteorologia! Então tá! Sentei em frente ao computador e comecei a digitar um texto a respeito do assunto. Milhares de coisas na cabeça, primeira coisa que aparece é essa canção. Comecei a cantarolar internamente e lembrei que ela já havia sido trilha sonora na minha vida. E me vi sorrindo da situação... e novamente uma outra canção... nesses dias tão estranhos, fica a poeira se escondendo pelos cantos... E daí? Está querendo dizer o que?

Então voltemos a colocar esse barco no rumo inicial. Só queira dizer que sempre que muda a estação por aqui, a coisa se complica. Não dá muito para saber que temperatura se vai enfrentar. Entre 17 e 30°C tudo pode acontecer. E esse ano a quantidade de chuva foi incrível.

Acontecem dias de torrar os miolos e na manhã seguinte, apostando em novo dia quente, talvez seja necessário voltar da rua para apanhar um casaquinho. Se estiver num dia de "revoltada", talvez se irrite mais com isso.
Hoje (ou ontem) a chuva não deu trégua, parecia que estavam usando baldes para atirar água lá de cima. E a relevância disso? Uma porção - se for discutir o aquecimento global. E outras tantas - se formos discutir o reflexo disso no humor nosso de cada dia.
Muitos dias seguidos de céu nublado, mau-meu humor na certa! Mesmo que nem pareça, pois teimosia é um defeito meu, e teimo em não ceder a ele (mau-humor). E completando o cenário, hoje é dia de segundo turno. Provavelmente minha candidata não se eleja. Oxalá não chova o dia todo!


...mesmo com tantos motivos pra deixar tudo como está,

nem desistir nem tentar e agora tanto faz...

...esse é nosso mundo, o que é demais nunca é o bastante...

Só para não ser tão “reclamona” uma poesia lindinha.

***
Sopros de Hilda Hilst

Aflição de ser eu e não ser outra.

Aflição de não ser, amor, aquela

Que muitas filhas te deu, casou donzela

E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha

Que te retém e não te desespera.

(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra

E ter a face conturbada e móvel.

E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.

Aflição de te amar, se te comove.

E sendo água, amor, querer ser terra.
(a chuva segue insistente)
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quinta-feira, 23 de outubro de 2008

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Lisboa revisitada

Lisboa - Torre de Belém - Rio Tejo


Outro dia – muitos – fiz um post curtinho, que chamei de Um pouco da alma portuguesa - sopros de Lisboa. Tinha foto, tinha canção com Dulce Ponte e poema de Pessoa. E lá eu dizia que tenho em mim um pouco da melancolia da alma portuguesa. Nada demais, pois rememorando Adélia Prado aqui: dor não é amargura... minha tristeza não tem pedigree, já minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô.

De qualquer maneira, os dias têm sido estranhos: trabalho, cansaço, lerdeza. Sabem quando tudo é slow motion? [não resisti ao termo em inglês]. Muito lento mesmo e em situações assim é muito mais certo que se fique um pouco mais pensativo, viajando, querendo estar em outro lugar. E talvez seja por isso que só tenho escolhido escritos mais reflexivos. Tenho comigo que não devo estimular a minha alma portuguesa, pois caso contrário ela pode me dominar – o lado... meio... melancólico.

Enfim, o preâmbulo foi para justificar o título [que furtei novamente], que é de um/dois poema(s) de Pessoa (Álvaro Campos). Que, aliás, adoro como praticamente tudo dele (não, não quero nada/já disse que não quero nada - 1923 ou nada me prende a nada/quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo - 1926...).

Voltando: o título sugere que quero retornar ao tema da alma portuguesa.

Hoje, por acaso, li o poema, intitulado Lisboa, de uma cearense chamada Virna Teixeira. Uma escritora-poeta-médica, daquelas que escreve curtinho e deixa a nossa imaginação correr solta. A minha anda louca para sair voando, então resolvi revisitar Lisboa, e a música portuguesa. Primeira lembrança foi o Madredeus. Mas em seguida me veio um fado, que o Caetano Veloso gravou e encontrei na voz da Dulce Ponte. Madredeus virá em outro momento. O nome da música é Estranha Forma de Vida, é triste, eu gosto, mas – ouso dizer – me divirto um pouco com algumas expressões. Vou deixar a letra também, pois tem pessoas que não conseguem ouvir a música do blog.


***

Letra: Foi por vontade Deus

Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.
Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.
Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.
Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes aonde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.
(Alfredo Duarte/Amália Rodrigues)


***

Sopro de Virna Teixeira : Lisboa

Os pés
caminham,
molhados
entre óculos
analíticos e
gabardinas
pela ladeira
a chuva
escoa
saudade
mágoas
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Insustentável leveza

Pôster do filme A insustentável leveza do ser

O ato de escrever é algo curioso – não sei se era “curioso” mesmo que eu queria dizer, minhas poucas palavras não sabem se expressar. Já disse e me repito sempre, que os textos por aqui se escolhem e tudo vai dependendo do meu estado de espírito. É uma repetição, também, dizer que um tema revela outro e todos juntos montam o quebra-cabeça da memória.

O primeiro motivo do post de hoje – meio preguiçoso – foi um poema de Emily Dickinson. Entretanto ao ler e reler, ele me remeteu ao livro do Milan Kundera [A insustentável leveza do ser], que li há muito tempo e que muito me impressionou. No meu quebra-cabeça interno, eles se complementaram e gritaram em uníssono para aqui estarem juntos. Eu não lutei contra.

***

Sopro de Milan Kundera

“Para Sabina, viver significa ver. A visão encontra-se limitada por duas fronteiras: Uma luz de tal modo intensa que nos cega e uma obscuridade total. Talvez seja daí que lhe vem a repugnância por todos os extremismos. Os extremos marcam a fronteira para lá da qual não há vida, e, tanto em arte como em política, a paixão do extremismo é um desejo de morte disfarçado."

“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão...Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. O que escolher então? O peso ou a leveza?"


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Sopro de Emily Dickinson

A separação por longos anos não cava
Brecha que em instantes não se preencha;
A ausência da feiticeira
Não invalida o encantamento

As milenares cinzas
Remexidas pela mão,
Que as atiçou quando eram chama,
Haverão de acordar e compreenderão
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quarta-feira, 8 de outubro de 2008

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Pensando o Poema do Cazuza

Gustav Klimt, Sea serpents IV

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Sopro qualquer - Lassidão e abismo*


Acordou lentamente, sem abrir os olhos. Uma lassidão se interpôs ao seu desejo de levantar e caminhar ao sol, que naquele dia em particular reluzia lascivamente. Não conseguia concentrar o pensamento em uma idéia. Perguntou-se de onde viria aquele misto de torpor e aflição. Rapidamente uma lembrança tornou-se nítida, um rosto, uma boca, mãos e o passado retornando sem aviso, sem piedade. Há muito que havia varrido os sentimentos para um local escuro na mente. Um encontro inesperado, uma lanterna iluminando o subterrâneo de uma mina abandonada. Nada nela ansiava por despertar os sentimentos do passado. Arrefecida a loucura da paixão sangrenta, os sonhos foram apaziguados pela negligência em construir um amor sereno. Pavimentou seus dias com uma calmaria modesta, uma rotina morna, mas que agora, estranhamente lhe parecia medíocre. Apertou as pálpebras. Não, definitivamente não permitiria a interferência sorrateira dos encontros-desencontros, da fissura do amor destrutivo, que necessitava de espasmos de dor para realçar sua presença. Reteve em si um pouco mais do calor do leito, respirou profundamente, abriu os olhos e observou o rosto ao lado, que dormia sereno. Imaginariamente vislumbrou o sorriso - iluminado pela luz que refluía através do vidro da janela - e que lhe cobria de carinho mesmo ao longe. No fundo sabia que, se o passado ousava lhe lançar os tentáculos, os braços deste homem lhe seguravam para impedir a queda livre no precipício.

(*pensando no Poema do Cazuza - post anterior - "com desculpas ao poeta", por pensar em cima da sua criação um outro cenário).
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quarta-feira, 24 de setembro de 2008

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Frio primaveril


Não sabia exatamente quem havia lhe enganado,
Se o inverno que anunciou sua partida
Ou a primavera que prenunciou sua chegada
Os jacarandás enfeitaram-se multicoloridos e exalaram seu perfume
Os pássaros surgiram apresentando seu canto, sua sedução,
e a disposição em disseminar mais cores.
Os olhos dela embeberam-se com verde, amarelo e lilás,
Seu corpo se preparou para o sopro tépido
E sentiu um aconchego antecipado.
Havia esgotado o prazer dos vinhos e dos lugares fechados,
Ansiava pela vida, livre das quatro paredes.
Foi dormir com a grata sensação que o sol iria brilhar com maior freqüência.
Acordou, abriu a janela, um vento gelado queimou-lhe o rosto,
Os pássaros quietaram e só sobraram as teimosas flores dos jacarandás.
Acolheu nela as dores de todos os sujeitos traídos pelo falso anúncio
e, esgotada do inverno, que insistia em retornar,
fechou a janela, vedou as frestas impedindo o frio de se instalar no coração.
Como de hábito, empilhou uma sobre a outra - junto com as cobertas - as expectativas, aguardando o novo florescer.


***

Sopro de Ben Harper - Morning Yearning

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