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segunda-feira, 1 de junho de 2009

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Poesia Matemática - Millôr Fernandes

Imagem: Rude Rucker - achei a imagem e curiosidade: o pintor é matemático!!! Descobri AQUI

E já que maio é findo, junho pede urgência! Urgência de tantas coisas! Se maio eu considerei um mês romântico e feminino, junho é o mês dos namorados. Mas isso é história para um outro post.

Mas pegando carona no tema do namoro e considerando que chegaram tantas pessoas aqui, no Sopros, buscando a Poesia Matemática do Millôr Fernandes, vou deixá-la para que possam conferir esse poema interessante. Pareço inspirada para posts, blogs e coisas do gênero?


Poesia Matemática - Millôr Fernandes


Às folhas tantas do livro matemático

um Quociente apaixonou-se um dia doidamente

por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a do ápice à base

uma figura ímpar;

olhos rombóides, boca trapezóide, corpo retangular, seios esferóides.

Fez de sua uma vida paralela à dela

até que se encontraram no infinito.

"Quem és tu?", indagou ele em ânsia radical.

"Sou a soma do quadrado dos catetos.

Mas pode me chamar de Hipotenusa."

E de falarem descobriram que eram

(o que em aritmética corresponde a almas irmãs)

primos entre si.

E assim se amaram

ao quadrado da velocidade da luz

numa sexta potenciação traçando ao sabor do momento

e da paixão

retas, curvas, círculos e linhas sinoidais

nos jardins da quarta dimensão.

Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana

e os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. E enfim resolveram se casar

constituir um lar, mais que um lar, um perpendicular.

Convidaram para padrinhoso Poliedro e a Bissetriz.

E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro

sonhando com uma felicidade integral e diferencial.

E se casaram e tiveram uma secante e três cones

muito engraçadinhos.

E foram felizes até aquele dia em que tudo vira afinal monotonia.

Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum

freqüentador de círculos concêntricos, viciosos.

Ofereceu-lhe, a ela,

uma grandeza absoluta

e reduziu-a a um denominador comum.

Ele, Quociente, percebeu que com ela não formava mais um todo,

uma unidade.

Era o triângulo, tanto chamado amoroso.

Desse problema ela era uma fração, a mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade

e tudo que era espúrio passou a ser moralidade

como aliás em qualquer sociedade.


***
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quinta-feira, 28 de maio de 2009

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Enquanto Maio...Poesia de Hilda Hilst

Imagem: Lover Tree - Jia Lu


Maio está quase chegando ao fim. O tempo passa voando mesmo. Há dias que acho isso ruim e em outros que nem tanto. Mas enquanto o fim de maio não chega, vou mostrar mais uma poesia “feminina”.

Desta vez escolhi Hilda Hilst. Desde que li os poemas de Hilda no livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, encantei-me por sua poesia. Não creio que seja necessário apresentá-la, mas vai que tem alguém que não a conhece?

Hilda Hilst nasceu em Jaú (SP) em 21 de abril de 1930 e morou desde 1965 na chácara Casa do Sol, em Campinas (SP). (Creio que tenha sido nessa chácara que Caio Fernando Abreu - já falei do Caio AQUI - se refugiou da ditadura militar). Ela formou-se em Direito pela USP e desde 1954 se dedicou à literatura. Considerada um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Faleceu em 4 de fevereiro de 2004.

O poema que vou mostrar faz parte do livro que citei acima e consta do capitulo Prelúdios - intensos para os desmemoriados do amor. Como de hábito li vários para escolher, mas como costumava dizer aqui no blog, eu não tenho escolhido poesias, trechos e autores. Eles se escolhem, pela forma impactante com que me atravessam a alma. Fico encantada e meio presa num visgo, não tendo como fugir dela(e)s.

Então, ao poema de Hilda!


***


I


Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento
Um sol de diamante alimentando o ventre.
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jugo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.


[Prelúdios - intensos para os desmemoriados do amor – Poema I – Hilda Hilst]
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domingo, 17 de maio de 2009

domingo, 17 de maio de 2009

A poesia do encontro – Elisa Lucinda, Rubem Alves e mais Cecília Meireles

Peter Ilsted - A Girl Reading in an Interiror



Título alternativo: Um encontro de amigos

O título do post tem vários significados. Primeiro é o título de um livro. Estava procurando uma poesia – de uma poetisa – e acabei relendo algumas autoras e muitos poemas (como é bom ler poesia!).

Buscando meus livros, lembrei que tinha comprado um livro no aeroporto de Brasília, ano passado (acho). O livro chama-se Poesia do Encontro. É uma “conversa” sobre poesia entre Elisa Lucinda e Rubem Alves.

Elisa Lucinda é poetisa, atriz e cantora. Rubem Alves é um escritor de crônicas e histórias infantis. O interessante desse livro, é que eles vão conversando e lembrando poesias. Elisa criou, no Rio de Janeiro, a Casa do Poema e ensina interpretação de poesia. O lema lá é: “falando poesia sem ser chato”. Ela faz oficinas pelo Brasil e conta histórias interessantes de sua experiência. Dá vontade de “declamar poesia” junto com eles. Sem falar que, ainda contam as histórias de alguns poemas famosos e recitam.

Segundo: me lembrei deste livro, pois foi lá que reli um poema do Millôr Fernandes, chamado Poesia Matemática. E surgiu o poema na mente, por causa do Amarísio, amigo que encontrei aqui no blog, professor de matemática, que fez aniversário este mês. Desta vez não vou postar o poema, pois minha intenção é continuar com as meninas poetas. Vou deixar para outra oportunidade, mas recomendo o livro de Rubem e Elisa.

Seguindo a busca por um poema, li muitos esses dias, pois queria encontrar um especial. O problema é que todos os que li me pareciam especiais. Li Adélia Prado, Emily Dickinson, Florbela Espanca, Hilda Hilst...Não li Clarice, pois é um perigo. Li Cecília Meireles e optei por ela, mas mesmo escolhendo a poetisa, mais difícil é selecionar o poema. São tantos e tão lindos. Pudesse postava todos que me gritaram mais alto à alma. Fiquei com Canção do Caminho, querendo muitos outros. Vamos a ele!


***

Canção do Caminho - Cecília Meireles


Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.

O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.

Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!

Ah! Mas logo ali adiante
- tão perto! –
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.

(Isso são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)

***
[Post dedicado ao Amarísio - Blog Recanto dos Sonhos]
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domingo, 10 de maio de 2009

domingo, 10 de maio de 2009

Mais uma consideração e Adélia Prado

Serenata - peguei na internet

Tem horas que sinto vontade de vir aqui e atualizar o blog, mas acho que esgotei todas as palavras, que não são muitas. Tem horas que tenho vontade de dar um tempo para ele (o blog) e para mim (e para os leitores também), mas confesso que não tenho muita coragem. Tenho um apego meio exagerado por determinadas coisas e determinadas pessoas (digo isso, por que o apego não é aquele apego material e dizendo assim pode parecer!). Essas primeiras palavras são o reflexo do meu humor, nada interessante por esses dias (e não é TPM!).

Mas resolvi atualizar, só para atualizar. E resgatando um pouco do que era o blog um tempo atrás (antes de eu inventar de escrever!) vou me socorrer com versos de outros. No caso, outra, Adélia Prado. Fui escolher um poema dela e é tanta coisa linda que dá vontade de colocar todos por aqui.

***
Sopro de Adélia Prado – A serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
De que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O Bruxo do Cosme Velho

Eu queria uma foto do Rio Antigo, mas resolvi colocar essa, que eu fiz um dia...está meio ruim, pois foi digitalizada.


Eu iniciei essa vida de blogar lá no Tagarelas Assumidas e foi meio no tranco, se dependesse de mim não começaria, pois sou muito lenta, necessito de uma energia de ativação enorme para algumas coisas, como me expor. A idéia era juntar uma mulherada que gostava de bater papo.

O Tagarelas acabou, sumiu do ar, e estou tentando recuperar alguns textos de lá pra cá, pois como ando sem a energia de ativação necessária para postar, vou me repetir. Sempre mudo alguma coisa do texto que escrevi antes e postei e “re-postei”, buscando erros e outras coisas. Afinal sou somente uma mortal e não uma escritora.

O texto era uma referência aos 100 anos da morte de Machado de Assis, vou suprimir algumas partes do anterior, pois quero também colocar um trecho de Memórias Póstumas, que anotei e encontrei mexendo em uma agenda antiga. Encantei-me novamente com a “descrição de sentimentos”.

***

Não tenho outra forma de escrever aqui se não sobre coisas que gosto. Sou uma pessoinha de muitos gostos e muitos des-gostos também. A literatura sempre foi muito presente na minha vida. Lembro como me agradavam as minhas aulas de literatura, sempre me dava bem e esse interesse perdurou pela vida toda, pois continuo adorando ler.

Esse ano comemora-se 100 anos da morte de Machado de Assis, um dos escritores que mais li desde as aulas de literatura. Sei também que tem muita gente que não gosta dos escritos dele e deve ser um sofrimento ler Machado por obrigação, mas enfim, cada um cada um... A obra é farta, são romances, poesias, contos e peças de teatro. A obra também já foi adaptada ao cinema, televisão. Gosto de várias coisas, mas meus prediletos são O Alienista, Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e faleceu em 1908. Em 1897, ele e outros intelectuais fundaram a Academia Brasileira de Letras, sendo seu primeiro presidente e até hoje a ABL é conhecida como a casa de Machado de Assis. Esses dias eu, descobri por acaso que os livros dele estão on line no
Portal Domínio Público , do Ministério da Educação. Quem quiser dar uma olhada lá, vai poder assistir a um vídeo sobre o Bruxo do Cosme Velho.

***

Sopro de Machado de Assis

A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer que era uma dor bastarda. Então o homem flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa, esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem cingia o peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se como uma ilusão.
(Delírio – Memória Póstumas de Brás Cubas)
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Insustentável leveza

Pôster do filme A insustentável leveza do ser

O ato de escrever é algo curioso – não sei se era “curioso” mesmo que eu queria dizer, minhas poucas palavras não sabem se expressar. Já disse e me repito sempre, que os textos por aqui se escolhem e tudo vai dependendo do meu estado de espírito. É uma repetição, também, dizer que um tema revela outro e todos juntos montam o quebra-cabeça da memória.

O primeiro motivo do post de hoje – meio preguiçoso – foi um poema de Emily Dickinson. Entretanto ao ler e reler, ele me remeteu ao livro do Milan Kundera [A insustentável leveza do ser], que li há muito tempo e que muito me impressionou. No meu quebra-cabeça interno, eles se complementaram e gritaram em uníssono para aqui estarem juntos. Eu não lutei contra.

***

Sopro de Milan Kundera

“Para Sabina, viver significa ver. A visão encontra-se limitada por duas fronteiras: Uma luz de tal modo intensa que nos cega e uma obscuridade total. Talvez seja daí que lhe vem a repugnância por todos os extremismos. Os extremos marcam a fronteira para lá da qual não há vida, e, tanto em arte como em política, a paixão do extremismo é um desejo de morte disfarçado."

“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão...Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. O que escolher então? O peso ou a leveza?"


***
Sopro de Emily Dickinson

A separação por longos anos não cava
Brecha que em instantes não se preencha;
A ausência da feiticeira
Não invalida o encantamento

As milenares cinzas
Remexidas pela mão,
Que as atiçou quando eram chama,
Haverão de acordar e compreenderão
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quinta-feira, 2 de outubro de 2008

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Alguma consideração e Luis Fernando Veríssimo


Hoje estou meio "down" - como diria o Cazuza - e nem iria postar, mas voltei atrás na decisão. Entretanto vou falar de algo não tão leve quanto poesia.

E ainda lembrei que tenho que votar no domingo e pela primeira vez na vida não tenho vontade. Eu que sempre me orgulhei de ser uma cidadã razoável e participativa (sic). Para falar de assunto "pesado" como "conjuntura política, social e econômica", ouso emprestar uma crônica do Luis Fernando Veríssimo.

Ele dispensa comentários. A maioria dos que conheço gostam dos textos dele, mas já encontrei quem não. De qualquer forma gosto muito. Estou lendo - entre outros - seu último livro: O mundo é bárbaro e o que nós temos a ver com isso (Editora Objetiva) e é dele que vou "apanhar trechos" da crônica HUMILHAÇÂO, bem atual, se pensarmos entre o tempo presente e quanto leva para publicar um livro...

São trechos e uns "grifos" meus...certa vez uma pessoa comentou que eu não deveria grifar partes de um livro, para não influenciar a leitura do outro. Mas eu só faço isso nos meus livros! E juro que não mudei o sentido e o objetivo da crônica (creio eu!). Na verdade, são só relatos do que foi suprimido.

***
Sopro de Luis Fernando Veríssimo - Humilhação

Nosso tamanho nos torna megalomaníacos natos. Não sabemos pensar no Brasil a não ser em superlativos. Somos amazônicos tanto nas nossas vaidades quanto nos nossos remorsos. Assim, a Arena, o braço desarmado do poder militar, podia dizer que era o maior partido do mundo porque, em números, era mesmo, tantos foram os políticos que a integraram naquela democracia de faz-de-conta...

(aqui ele também faz uma crítica ao MDB, para depois continuar comentando sobre a nossa megalomania, assim:)

...Depois, com o fim do regime militar, o voto obrigatório nos autorizou a dizer que éramos, em proporção à população, a maior democracia de verdade em funcionamento no mundo. E o que sentiamos ao descrever nossas mazelas gigantescas só pode ser descrito como orgulho desvairado, quase uma forma de ufanismo. Nenhum outro país é tão corrupto quanto o nosso. E estamos sempre superando nossas marca...

(e fala sobre os escândalos, já nem tão recentes, no país e eu não vou repeti-los)

...Não quero desiludir ninguém, mas eu estava lendo uma matéria no New York Times sobre superfaturamentos, custos fictícios e outras falcatruas de empresas americanas contratadas para reconstruir o Iraque, e, à medida que lia, minha megalomanis murchava. Até nisso eles nos humilham...

...Mesmo com os bilhões de dólares gastos e roubados, e alguns anos depois da queda do Saddam, ainda não conseguiram restabelecer completamente a eletricidade no país...

(então refere-se a citação do Times, sobre a reconstrução de um hospital infantil em Basra, cujo prazo venceu, o custo multiplicou várias vezes e não foi acabado)

...E o pior para o nosso ego é que, com tudo isso, você não ouve os americanos dizerem que são os mais corruptos do mundo. Ainda por cima nos arrasam com sua modéstia.

(alguém ai ouviu falar numa tal de crise econômica, financeira?)
Então tá, e o que eu tenho a ver com isso? Vou votar no domingo, com bom ou mau humor. Prometo - aos poucos, mas fiéis amigos que me visitam - que na próxima volto a falar de poesias e coisas amenas.
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terça-feira, 23 de setembro de 2008

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Caminhos (e sensações) da Índia



Hoje fui procurar um presente especial. Difícil encontrar presentes para quem tem praticamente tudo, falando de coisas materiais e de presentes viáveis financeiramente. De qualquer forma meu alvo inevitável foi uma livraria e nela os livros de culinária.

Encontrei um - que faz parte de uma coleção intitulada Cozinha das Sete Famílias - sobre a culinária indiana. Uma poesia de texto e imagens. Encantei-me! Antes de entregar o presente vou furtar - como quem furta rosas do jardim alheio - um pouco do conteúdo para postar aqui. Furtar duas vezes, do aniversariante e da família indiana, que no livro responde umas perguntinhas. Selecionei as respostas, de cada um, que mais se adequavam ao meu momento. É ficou assim:

Se eu fosse... uma cor,
eu seria o vermelho das pimentas, bem brilhante, uma prova de sabor e de força!
Se eu fosse... um cheiro,
eu seria o do garam masala, salpicado sobre os pratos no exato momento de servi-los. Incomparável.

Se eu fosse... um sabor,
eu seria o sabor quente da canela quando está em infusão.

Se eu fosse... um utensílio,
eu seria a folha da bananeira! Um papillote natural e com um perfume único.

Se eu fosse... uma lembrança gustativa,
eu seria a primeira vez que eu senti o cheiro da baunilha...
Eu perguntei à mamãe se eu podia comer a vagem!

Se eu fosse... um pecadinho,
eu seria uma manga! Supersuculenta, quase madura demais, para dar uma dentada e sentir o suco que escorre na boca.

***

Foi ler as respostas e viajar...um mundo de lembranças assalta a memória...

Não satisfeita, fui buscar uma poesia de um autor indiano que me completasse a estranha sensação... Sintam o sopro de Rabindranath Tagore, nascido em Calcutá (1861) e falecido em Bengala (1941). Ouçam o belo sopro da voz de Ná Ozzeti, que se não tem complemento com o texto, causou-me uma boa sensação ao ouvir.

***
Sopro de Rabindranath Tagore

No dia em que a Flor de Lótus desabrochou

A minha mente vagava, e eu não a percebi.

Minha cesta estava vazia e a flor ficou esquecida.

Somente agora e novamente, uma tristeza caiu sobre mim.

Acordei do meu sonho sentindo o doce rastro

De um perfume no vento sul.

Essa vaga doçura fez o meu coração doer de saudade.

Pareceu-me ser o sopro ardente no verão, procurando completar-se.

Eu não sabia então que a flor estava tão perto de mim

Que ela era minha, e que essa perfeita doçura

Tinha desabrochado no fundo do meu coração.

(Flor de Lótus)


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domingo, 14 de setembro de 2008

domingo, 14 de setembro de 2008

Para uma avenca partindo - Caio Fernando Abreu


Hoje, para iniciar a semana, selecionei um trecho do Caio Fernando Abreu. Caio nasceu em Santiago do Boqueirão (RS) em 1948 e faleceu em Porto Alegre (1996). Foi jornalista e escritor e seus escritos versam sobre sexo, medo, morte e solidão.
Há horas que estou pensando em publicar aqui, pois é mais um escritor sensível, que me encanta. Como é meu hábito, vou transcrever somente alguns trechos que foram extraídos do conto Para uma avenca partindo (Fragmentos – 8 histórias e um conto inédito, L&PM).
A música que está tocando é Valsinha, do Chico Buarque, que é linda, que amo e que achei que combinava - um pouquinho pelo menos - com o texto do Caio.

Tenham todos uma bela semana.

***

Sopro de Caio Fernando Abreu

- Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende?...

...é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além de nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite...

...você cresceu dentro de mim dum jeito insuspeitado, assim como se você apenas uma semente e eu plantasse você esperando nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez uma samambaia, no máximo uma roseira...em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço...

(Para uma avenca partindo - CFA)
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sábado, 6 de setembro de 2008

sábado, 6 de setembro de 2008

Saudade - Mais de Martha Medeiros

Outro dia comentei sobre o livro Doidas e Santas da Martha Medeiros. Já faz um tempo que ando saudosa. Saudades gerais e irrestritas, sabe como é? Saudade de pessoas minhas, de lugares, de viagens que fiz. Há momentos que ela chega mais forte, mas em geral suportável. Até poderia escrever um pouco mais sobre o assunto, mas resolvi emprestar um pedaço da crônica da Martha para esse momento.

Não vou de forma alguma transcrever todo o texto, mas vou "pescar" um pedacinho para uma leitura rápida. E ela fala com a propriedade de uma grande escritora que é, por isso vamos à ela.

A saudade não tem nada de trivial. Interfere em nossa vida de um modo às vezes sereno, às vezes não. É um sentimento bem-vindo, pois confirma de quem é ou foi importante para nós, e é ao mesmo tempo um sentimento incômodo, porque acusa a ausência, e os ausentes sempre nos doem.
Por sorte, é relativamente fácil exterminar a saudade de quase tudo e de quase todos, simplesmente pegando o telefone e ouvindo a voz de quem nos faz falta ou indo ao encontro dessa pessoa. Ou daquele lugar que ficou na memória: uma cidade, uma antiga casa. Uma saudade do sabor de uma comida, de um cheiro do passado, de um abraço...(Martha Medeiros).

Está certo, se você pensou em uma saudade que não é possível abrandar, o objetivo dela era mesmo falar dessa saudade, mas não é bem o meu objetivo no momento. 

E voltando na direção que queria e a propósito de odores e sabores, esses dias eu caminhava por minha rua e me venho um cheiro de infância, como se eu tivesse sido transportada no tempo. Sinto perfumes, cheiro de fumaça, odores de comidas da casa de mãe. Tenho muito dessas sensações, que me pegam sempre desprevenida e viajo no tempo, instigando minhas lembranças e saudades. Não é uma dor, é acima de tudo um sentimento bom, de que minha memória olfativa sobrevive a despeito do tempo e da distância.

Sopro de imagem

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terça-feira, 19 de agosto de 2008

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Mulheres: doidas ou santas?

Ando buscando “inspiração” para escrever por aqui, pois continuo não tendo muita noção do que quero com esse “espaço”. Não sei fazer poesia, há muito tempo atrás até achei que queria ou que sabia, mas não evoluiu. Não sei escrever crônicas, não sei e não sei mais um montão de coisas. Tenho que rir dessa minha aridez.

De qualquer forma fui contaminada pela vontade de escrever. Sempre que leio as coisas que escrevo tenho a impressão que alguém já escreveu aquilo, mas creio que é assim mesmo, somos a somatória de tudo que vivemos, lemos, experimentamos. Nossas opiniões, nossos pensamentos são “tramados” na vivência ou convivência. E penso e penso e minhas dúvidas persistem.

Nesse caso, mudo de assunto, quase permanecendo nele mesmo – é possível? Ensaio de loucura! Gosto muito de ler, mas há momentos que passo tempos sem ler nada. Ultimamente não deixo de ler um livro novo mais que uma semana, vicia sabe? No momento estou lendo um livro da Martha Medeiros, escritora gaúcha que gosto bastante, leitura fácil, fala do cotidiano de forma simples e ao mesmo tempo elegante. A coletânea de crônicas que leio agora é “Doidas e Santas” (L&PM) e para quem gosta da escritora é uma boa dica, mas quem a lê com freqüência nos jornais, talvez encontre alguma já lida. Vou deixar só um pedacinho daquela que dá nome ao livro.

***

Sopro de Martha Medeiros
“Toda mulher é doida. Impossível não ser. A gente nasce com um dispositivo interno que nos informa desde cedo que, sem amor, a vida não vale a pena ser vivida, e dá-lhe usar nosso poder de sedução para encontrar “the big one”, aquele que será inteligente, másculo, se importará com nossos sentimentos e não nos deixará na mão jamais...Uma tarefa que dá para ocupar uma vida, não é mesmo?
Eu só conheço mulher louca. Pense em qualquer uma que você conhece e me diga se ela não tem ao menos três dessas qualificações: exagerada, dramática, verborrágica, maníaca, fantasiosa, apaixonada, delirante. Pois então. Também é louca e fascinante.”
...

(Trecho da crônica Doidas e Santas – Martha Medeiros)
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sábado, 9 de agosto de 2008

sábado, 9 de agosto de 2008

O sorriso do Gato de Alice


Será que sei onde quero chegar? Já vi filme, desenho animado, já ouvi referências. Não tinha lido o livro, resolvi ler. Esto gostando muito.
Bom findi e
Lindo Dia dos Pais!
***
Sopro de Lewis Carroll

- "Pode me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?" disse Alice.

- "Isso depende bastante de onde você quer chegar", disse o Gato.

- "O lugar não me importa muito...", disse Alice.

- "Então não importa que caminho você vai tomar", disse o Gato.

- "...desde que eu chegue a algum lugar", acrescentou Alice em forma de explicação.

(Alice no País das Maravilhas - L.Carroll)
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