quinta-feira, 16 de setembro de 2010

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Era noite, talvez dia...



Era noite, mas talvez dia.
Pois as noites e os dias não mais se diferenciavam.
Não dormia.
Ou pelo menos imaginava que não dormia.
Sendo assim, não descansava.
E tinha uma penumbra, que não cessava.
Penumbra nos olhos.
Ou talvez no espírito, meio atordoado que andava.
Era vagar por terrenos não sólidos, mas queria o solo,
Que fizesse sentir além daquela fluidez translúcida.
Pensar, pensar, pensar.
A ordem da vez era pensar.
Mas todos os pensamentos eram emaranhados de seda,
ao puxar um deles... arrebentava.
Puxava o próximo,
e o próximo.
Sem nem mesmo concretizar a vil existência.
Era noite ou era dia?
Nem sabia.
Somente pedia para acordar do sonho,
ou do pesadelo da pesada existência.
Queria viver livre e
leve.

====

* A imagm eu peguei no Google Imagens. A poesia foi um parênteses na minha ausência, para inaugurar mais um template idealizado e realizado pela Layla Lauar, a grande responsável pela existência do Sopros. Sinto saudades dos amigos, mas os compromissos me aprisionam.
Continue Lendo »

quarta-feira, 21 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Imagens e melancolias

Os dias são quentes e os sabores se perderam numa sensação de “sem-paladar”.


As imagens embaralham e me curvo no cansaço dos dias sem fim.


Os dias não tem fim e os pensamentos são como passos largos, correndo.


As passadas são mais longas e paralisam-me num suor de febre sem calor,


O calor que molha, mas não encharca o suficiente para lavar as saudades que insistem em enlouquecer.


Os sons prometem luz para dias que mostram sorrisos sempre pálidos.


Grito num cano de esgoto esquecido na rua - no mesmo cano que o homem sentou para fazer a fotografia -
e todos os monstros que adormeceram dentro de mim saem e deixam um buraco no meu peito.

Aspiro o ar profundamente na tentativa de recompor meu ser e seguir na ponta da vida,


Que nem se importa com aquele sentimento de profunda solidão que tomou conta do meio do meu dia, quando todos sorriam do outro lado.
-----
Sobre a imagem: peguei no Google Imagens, se souber autoria me avise nos comentários.
Continue Lendo »

sexta-feira, 9 de abril de 2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tangida pela vida

John William Waterhouse - Ophelia


E se assim vivi,

pois é assim que se vive

quando nem se tange a vida,

e dormi, sobretudo quando me atordoava

a fúria louca da busca,

que entrelaça meu querer

num pulsar completamente

estranho

correndo e navegando

voltando e mergulhando

num sopro sôfrego

que inala verões findos

que levaram um amor

de papel marchê
Continue Lendo »

sábado, 3 de abril de 2010

sábado, 3 de abril de 2010

Reminiscencia de verão

Imagem da internet


Título alternativo: Febre em noite clara.

Noite clara e quente. A lua, em sua face mais brilhante, se enchia luminosa. Os barulhos silenciosos preenchiam a madrugada. Um ou outro som de motor, do solitário veículo e seu motorista, que rodavam na noite em busca de consolo para sua alma angustiada. Era verão e como de hábito, todos escapavam para se refugiar junto ao mar, no litoral. A cidade era dos errantes, dos solitários, dos melancólicos, dos perdidos, dos desprovidos. Mas também era o momento de aproveitá-la na sua plenitude.

Rolava na cama sem conseguir dormir, tentado identificar os silenciosos ruídos. Em vão, pois a cada tentativa, menos audível ficavam. Somente os sons da sua própria mente é que gritavam alto e a impediam de descansar. Resolveu tomar uma ducha fria, que talvez espantasse o calor e seus fantasmas para o além. Deitou o corpo molhado na cama e tentou adormecer. A lua invadiu o quarto com sua luz, penetrando pela fresta da cortina, que fechara para simular uma privacidade solitária que não almejava.

A luz fria e branca fez com que se sentisse acompanhada. A lua – diziam – era companhia dos loucos, dos poetas e solitários. Talvez tenha sonhado, mas era bem possível que estivesse mesmo era enlouquecendo, pois sentiu a presença de um ser se materializando naquele instante. A lua pareceu como um ente com quem podia conversar e falar sobre suas angústias, sobre os gritos que atormentavam sua mente solitária. Por quanto tempo teria ficado ali, deitada e sentindo o feixe branco como se fosse uma deusa que pudesse realizar seus desejos? Não poderia quantificar, somente se deixou ficar e nem o calor mais a incomodava.
Conversou com a lua e fez um pacto: ela lhe traria o amor com o qual sonhara, que alimentaria sua alma e se banharia no seu corpo. Corpo e alma preenchidos por esse amor, navegaria pelos mares calmos ou agitados da existencia, sem temer a solidão que outrora lhe afligira. Em troca contemplaria a lua em todas as suas fases, pois é verdade que o astro estaria no céu a fitá-la com generosidade, mesmo quando só mostrava sua face escura e todos os seres esqueciam sua existencia.

Não sentiu-se adormecer, mas ao abriu os olhos já existiam ruídos e uma efervescencia no ar. As crianças da vizinhança gritavam e riam festivamente na rua. Levantou ainda tonta da cama e foi à janela espiar. Era dia e chovia. A correria barulhenta e a energia que emanava lá debaixo enfim sossegou sua alma. Olhou para céu buscando a lua, somente por sabê-la no infinito. Vestiu uma roupa e desceu para tomar banho de chuva. Correu e gritou e brincou com os pequenos, sentindo momentaneamente que a solidão se esvaia e sua febre cedia.
Continue Lendo »

domingo, 21 de fevereiro de 2010

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Tempestade

Peguei na internet


De repente o céu tornou-se cinza. A rapidez como aconteceu lhe deixou perplexa e, um sentimento estranho também se insinuou dentro dela. Abriu a janela do apartamento para sentir o vento forte e olhar os blocos de chumbo que se formaram no céu. Pareciam sólidos. Debruçou-se no parapeito da janela e começou a observar a sutil movimentação que se seguiu ao escurecimento da tarde.

Nos apartamentos dos prédios ao redor do dela, um rapaz que segurava uma caneca, e também olhava o céu, abriu a janela para sentir o vento; na varanda uma mulher fechou a porta para impedir que vento e chuva invadissem a sala; a moça do andar de baixo pressentiu sua presença e esticou a cabeça para fora e para cima; uma cortina tremia lá longe, como uma bandeira. E os poucos carros que estavam na cidade naquele derradeiro fim de semana de verão transitavam apressados.

Naquela tarde de domingo nem o cheiro de bolo assando - em algum lugar ali perto – lhe fez sentir-se feliz. Os grossos pingos de chuva começaram a cair das nuvens de chumbo acima da sua cabeça e ela deixou-se ficar na varanda sentindo o rosto molhar. Queria mesmo que aquela água lavasse sua alma e seus pensamentos, gostaria que a força demonstrada por essa tempestade pudesse romper o ciclo de melancolia que novamente se instalava nela. O corpo tremia de pensar que tudo se repetia de forma insistente: o encontro, a paixão, um novo querer, o apego, o cuidado, o carinho e o abandono. Sem novidades no seu destino, se apegava a delicadeza de instantes como aquele, quando a natureza mobilizava muitos aparentemente-diferentes para admirar sua força. Todos se encontraram em suas janelas para sentir o vento na tarde quente de domingo, e todos puderam perceber certa solidão uns nos outros. E se esse mesmo vento pudesse mais tarde trazer más notícias, naquele momento ela se sentiu acalentada e acompanhada por outros tantos seres que podiam estar aguardando um acontecimento como aquele para levantar e o olhar para fora do seu pequeno mundo.

Inconscientemente parou de sofrer, suas roupas já estavam molhadas e se chorou realmente não percebeu, mas sentiu que estava leve. Resolveu que os sentimentos pessimistas que sentia até a pouco seriam levados pela água, escorreriam pelos ralos, para que pudesse iniciar o ano com vontade de viver novas emoções, sem medo do que pudesse vir no futuro, sem desacreditar que pudesse amar de novo e ser feliz com esse amor. Lembrou do cheiro do bolo. Respirou fundo e foi como se sentisse o sabor de bolo quente na boca.
Continue Lendo »

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Desobediência

Imagem: Poenies - Jia Lu


***

Você corre
O Coração...
...ah! o Coração!
Ele lhe diz que avance sinais,
Que pule obstáculos,
Que supere barreiras
Ele pulsa forte, grita que quer,
Lhe instiga e desobedece suas ordens,
Ele insiste, contradiz,
Embaraça seus sentidos,
Ignora seus pedidos.
Você se esconde, se protege,
Se defende,
e Ele...
...Ele não tem ouvidos
aos seus apelos!!


***
Continue Lendo »

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Conto, não conto!

Imagem: internet

***

Maria era uma moça cheia de sonhos. Sonhava dormindo e sonhava acordada. Naquela tarde, saiu do trabalho para pagar umas contas para o chefe. Caminhava pela rua e balançava o guarda-chuva, pensando em como seria bom sair dançando e cantando. Lembrou da música e cantou mentalmente: I'm singing in the rain/Just singin' in the rain…

Sorriu ao pensar nisso e imaginou que quem passava ao seu lado podia bem imaginar que era louca. Era louca sim, era louca para ser feliz. Pudesse espantava tudo de ruim que tinha na vida e só... sonhava.

Seus muitos sonhos ela contava, outros pensava: conto? Não conto! Conto! E não conto. Alguns simplesmente tinha medo de exteriorizar.

Ela sabia que nem sempre seus desejos se realizariam, mas às vezes não sonhava para que se realizassem. Era simplesmente por gostar de sonhar, só isso. Queria um mundo melhor, pensava sempre e primeiro nos seres humanos e via um mundo onde todos fossem iguais, todos gostassem de gente e onde as diferenças eram olhadas como uma forma de beleza e não de suspeitas, cuidados, perigo, ameaça. Acreditava que, no momento em que todos os seres humanos gostassem de gente, seria mais fácil respeitar e conservar o mundo para as próximas gerações.

Esse sonho ela tinha certeza que não veria, mas acreditava possível. Afinal...sonhava!

Ansiava pelo equilíbrio, sem ser extremista em nenhum aspecto, mas tentava ser coerente com seus sonhos, respeitando tudo e todos. Procurava não ser daquelas pessoas que erguem bandeiras por muitas causas, mas saem consumindo marcas, etiquetas e rótulos.

Pensava tudo isso enquanto caminhava e rodopiava o guarda-chuva. De repente os olhos de Maria brilharam: viu um objeto lindo e caro numa vitrine. Não sentiu vergonha do desejo que se apossou dela: desejou algo que lhe era impossível. Esse era um daqueles sonhos que Maria não contava, pois não os queria realizar, ela os tinha guardado como tesouros e só de vez em quando abria a caixinha dos sonhos para admirar. Não os queria de fato, os tinha como seus tesouros-enrolados-em-papel-de-seda. Os possuía – sonhos e desejos – guardados no fundo do baú da mente.

Então Maria tinha esses sonhos, esses de não contar. Outro era sobre um certo homem... Conto ou não conto? Não, não conto. Essa é outra história e se for possível, um dia eu conto...

***
[Aproveito essa postagem para agradecer os selos que recebi da Pamela Rodrigues (Blog Eu e Minhas Letras), Thania (Arte Imita a Vida) e da Cintia (Opinião Consciente). Obrigada, adorei a lembrança.]
Continue Lendo »