

Posso simplesmente te querer?
Posso levar meus olhos a passear pela tua ausência,
sentindo o teu buscar nas minhas retinas
que enxergam flores em janelas debruçadas de dor?
Posso querer te mostrar meu olhar pelo mundo e meu mundo,
que se limita ao meu pensar atravessado pela tua poesia suplicante?
Quero querer e poder navegar meus olhos transbordantes de cinza,
que são tingidos pelas flores róseas, lilases e vermelhas das azaleias,
dos ipês e dos gerânios.
No meu cinza não há deserto,
há uma aquarela pintada pela vontade de viver amando o que pode ser amado,
de carregar para dentro de mim - trazido na palma da mão –
o universo todo que me encanta,
desde as palavras até os palácios que vi e aqueles que imaginei.
Posso te dizer que me encantas com um pulsar inexistente de poesia falecida?
Posso?

Num dia, fé pura
noutro, descrença que sofria.
Quase suplicava pela fé dos muito crentes,
que ignoravam crueldades e ultrapassavam todas as dores.
Almejando alcançar o reino prometido,
enxergavam justiça no caos do dia-a-dia,
que ela simplesmente não via.
Olhava a lua que espelhava a verdade dos medos e inseguranças,
tudo bem camuflado por baixo dos tapetes de gelo
que lhe forravam a alma desengonçada-de-não-saber-viver.
Escondia os receios na ponta de cada esperança
que acendia no alvorecer e morria quando a lua cheia
lhe atravessava com verdades que teimava não enxergar.
Hoje é julho e um tempo de genuína dissintonia.
***

**

Os papeis atirados no chão da sala.
O sol vertendo seu sangue lá fora;
Gotas de suor jorrando da testa,
molhavam os pedaços da vida.
Vida! Sem idade para esperanças, olhava o passado atirado no chão.
mas houve um tempo de acreditar:
tempo de cartas e roteiros de viagem,
olhos navegando no passado,
como se fosse o ante(ontem) latejante.
Todas aquelas palavras contavam de lugares, falavam de pessoas,
uma melancolia de verões (ou)tonos do passado.
Visitava sons, aromas e sabores.
Ao voltar, atirava no lixo a vida que fluía de cada pedaço de papel.
Outras estações sucediam, e o suor,
- que o sol impunha ao verão –
borrava a visão e talvez fossem lágrimas de um verão de transição, de mudanças,
que há anos lhe espreitavam a existência,
sorrateiramente disseminando a necessidade de intervir.
Outros papeis e outras viagens
rolavam atiçados pelo sopro quente
e a urgência em tomar a vida de volta,
deixar para trás as angústias de sempre
O sol ... queimava sua alma.
Mesmo estando à sombra sentia
o sangue do sol gotejando pela testa.
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30-31/01/2011







