segunda-feira, 12 de outubro de 2009

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Desobediência

Imagem: Poenies - Jia Lu


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Você corre
O Coração...
...ah! o Coração!
Ele lhe diz que avance sinais,
Que pule obstáculos,
Que supere barreiras
Ele pulsa forte, grita que quer,
Lhe instiga e desobedece suas ordens,
Ele insiste, contradiz,
Embaraça seus sentidos,
Ignora seus pedidos.
Você se esconde, se protege,
Se defende,
e Ele...
...Ele não tem ouvidos
aos seus apelos!!


***
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Conto, não conto!

Imagem: internet

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Maria era uma moça cheia de sonhos. Sonhava dormindo e sonhava acordada. Naquela tarde, saiu do trabalho para pagar umas contas para o chefe. Caminhava pela rua e balançava o guarda-chuva, pensando em como seria bom sair dançando e cantando. Lembrou da música e cantou mentalmente: I'm singing in the rain/Just singin' in the rain…

Sorriu ao pensar nisso e imaginou que quem passava ao seu lado podia bem imaginar que era louca. Era louca sim, era louca para ser feliz. Pudesse espantava tudo de ruim que tinha na vida e só... sonhava.

Seus muitos sonhos ela contava, outros pensava: conto? Não conto! Conto! E não conto. Alguns simplesmente tinha medo de exteriorizar.

Ela sabia que nem sempre seus desejos se realizariam, mas às vezes não sonhava para que se realizassem. Era simplesmente por gostar de sonhar, só isso. Queria um mundo melhor, pensava sempre e primeiro nos seres humanos e via um mundo onde todos fossem iguais, todos gostassem de gente e onde as diferenças eram olhadas como uma forma de beleza e não de suspeitas, cuidados, perigo, ameaça. Acreditava que, no momento em que todos os seres humanos gostassem de gente, seria mais fácil respeitar e conservar o mundo para as próximas gerações.

Esse sonho ela tinha certeza que não veria, mas acreditava possível. Afinal...sonhava!

Ansiava pelo equilíbrio, sem ser extremista em nenhum aspecto, mas tentava ser coerente com seus sonhos, respeitando tudo e todos. Procurava não ser daquelas pessoas que erguem bandeiras por muitas causas, mas saem consumindo marcas, etiquetas e rótulos.

Pensava tudo isso enquanto caminhava e rodopiava o guarda-chuva. De repente os olhos de Maria brilharam: viu um objeto lindo e caro numa vitrine. Não sentiu vergonha do desejo que se apossou dela: desejou algo que lhe era impossível. Esse era um daqueles sonhos que Maria não contava, pois não os queria realizar, ela os tinha guardado como tesouros e só de vez em quando abria a caixinha dos sonhos para admirar. Não os queria de fato, os tinha como seus tesouros-enrolados-em-papel-de-seda. Os possuía – sonhos e desejos – guardados no fundo do baú da mente.

Então Maria tinha esses sonhos, esses de não contar. Outro era sobre um certo homem... Conto ou não conto? Não, não conto. Essa é outra história e se for possível, um dia eu conto...

***
[Aproveito essa postagem para agradecer os selos que recebi da Pamela Rodrigues (Blog Eu e Minhas Letras), Thania (Arte Imita a Vida) e da Cintia (Opinião Consciente). Obrigada, adorei a lembrança.]
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domingo, 6 de setembro de 2009

domingo, 6 de setembro de 2009

De alegrias e de dores...

Imagem: internet


Há dias em que sou destemida, como Dom Quixote, enfrento todos os fantasmas da mente e corro, e luto e sou forte. Há dias que ser destemida dá a sensação que tudo vai dar certo e que tudo é belo. É nesses dias que o céu é mais azul, que a chuva é mais poética e embala meus sonhos de amor possível. É nesses dias que levanto, abro o guarda-roupa e escolho a roupa mais bonita e ilumino o rosto para sair, como quem usa as ruas como passarela de dança e dança ao caminhar, sorrindo e achando que nada pode ser ruim ou que tudo pode vir a ser melhor.


Há dias em que mesmo o sol brilhando são lágrimas que escorrem do meu rosto e embaçam o meu olhar para o mundo. Sem poder enxergar muito bem, não vejo luz, nem céu azul, nem distingo esperança. A chuva é um barulho que tortura. Nesses dias qualquer roupa serve, sair de casa é um tormento e os fantasmas que habitam nossos pesadelos assustam, como quando se é criança e temos medo do escuro. Nesses dias ficar abrigada pelas cobertas é uma fuga possível.


Há dias de solidão, há dias que pesam os dias. Mas sempre há dias para lembrar que nada dura para sempre, que tudo pode passar...



[Um pedido de perdão, aos amigos, pela ausência, ando sem tempo e sem criatividade, como podem perceber pelo texto de hoje. Não consigo mais a frequencia de outros tempos. Tempo! Que vai, que não volta...]
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sexta-feira, 31 de julho de 2009

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A outra janela

Imagem: Edward Hopper - Night Windows


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No apartamento da outra janela, o rapaz que ali morava, chegava quase sempre às dezoito horas. Ele sempre conseguia fugir do engarrafamento e descansar um pouco antes de sentar à mesa para escrever. Isso acontecia quase todas as noites. Saia pouco, e principalmente nas sextas e sábados.

Trabalhava numa livraria pequena, dentro de um museu, que vendia apenas livros de arte, culinária, turismo e materiais de escritório sofisticados. Excepcionalmente tinham alguns livros de poetas clássicos. Ele costumava dizer que era o emprego dos seus sonhos.

Apesar de passar várias noites escrevendo solitariamente, ele conhecia muitas pessoas, o trabalho fazia com que encontrasse entre os clientes, amigos que eventualmente se encontravam para falar sobre assuntos de interesse comum como literatura e arte. Era uma pessoa interessante, se não era belo para os padrões estéticos contemporâneos, tinha um rosto com traços marcantes e uma beleza peculiar, que era acentuada pela conversa incrivelmente encantadora. Fazia muito sucesso com as mulheres, apesar de ser um solitário por opção. Ao contrário da moça da janela, ele acreditava em amores eternos e aguardava ansioso pelo momento de um (certo) reencontro definitivo. Enquanto isso não acontecia, preenchia seu tempo escrevendo romances, poesias, tendo relacionamentos superficiais com algumas das muitas mulheres que se encantavam por ele.

A mesa que sentava para escrever – aliás, ele gostava de escrever da maneira antiga, com lápis ou caneta - ficava próximo a janela ampla de seu apartamento. De lá, um dia notou outra janela, de um apartamento que ficava na rua perpendicular a sua. A visão era ampla e viu uma moça parada, olhando na sua direção. Fingiu que olhava para outro local, mas a partir desse dia começou a acompanhar discretamente a rotina da moça. Gostava de imaginar o que ela pensava dele e tinha muita curiosidade sobre aquela moça solitária, que como ele passava muitas noites em casa.

Naquele dia, a moça não apareceu, as cortinas não se abriram completamente. Ele via a luz da televisão, mas não a via. Dispersou completamente dos seus escritos e pensava o que ela estaria fazendo. Foi despertado dos seus pensamentos pelo toque do telefone, no mesmo momento em que, do outro lado, a moça pegava o livro de Caio Fernando Abreu.

Do outro lado, ao telefone, a voz manhosa de uma mulher de cabelos lisos e dourados, magra e alta e muito, muito falante. Eles se conheceram na livraria e logo se entenderam, ela se encantou por ele. E ele, se encantou com o modo como ela chegava dominando todos os espaços e ainda assim, encantada por ele. Era uma das amigas com quem mais gostava de estar e sentia falta de seus momentos intímos, quando por algumas vezes ela desaparecia para cuidar dos seus muitos compromissos sociais.

Já fazia algum tempo que não se viam. Ela tinha acabado de chegar de uma viagem por alguns países da Europa e ligou para conversarem. Ele se esqueceu da outra janela e ao desligar o telefone, calçou rapidamente um sapato, pegou um casaco e foi ao encontro daquela mulher que lhe fazia esquecer o cansaço dos seus dias solitários.

Enquanto ele descia pelo elevador, a moça lá do outro lado, olhou pela janela, o perdeu de vista e foi dormir, controlando os estranhos sentimentos que se apoderaram dela. Enquanto ele bebericava vinho, ela sonhava que era criança e brincava de roda com mais um monte de outras crianças. O sorriso que iluminou seu rosto dormindo, clareou o quarto escuro. Logo seria dia e tanto ele quanto ela poderiam retomar suas rotinas. Ou ter mais uma oportunidade modificá-las.

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Aceitei a sugestão da Minnie (Blog 1 Momento Só) e dei continuidade ao post anterior, mas como isso é complicado, fico por aqui mesmo. Sem continuações outras. Obrigada pela sugestão, Minnie.
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quarta-feira, 22 de julho de 2009

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Insônia e solidão

Getty imagens - internet


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A moça estava sentada no sofá e olhou a sua volta: o livro esquecido na cadeira, a televisão sem som que mostrava mais um daqueles programas chatos de todos os dias. Olhou para a janela e vislumbrou a noite e as luzes lá fora. Conteve mais uma vez o impulso de ir olhar através dela e tentar enxergar o rapaz que ficava escrevendo, sentado próximo à sua própria janela no apartamento ao longe, mas não tão longe que não pudesse lhe acompanhar a rotina noturna.


Chegava em casa sempre próximo das vinte horas e ele, lá do outro lado, saía do quarto, organizava coisas em cima da mesa, buscava uma jarra com água e um copo, que depositava junto aos livros e papéis. Sentava, abria um livro, lia alguns trechos e depois escrevia por horas.

Acostumou-se a olhar a cena. Fazia suas tarefas com a cortina aberta e quando terminava tudo, ficava lá, parada. Era uma forma de companhia observá-lo, ela que muitas vezes era tomada por uma sensação de imensa solidão. Deu-se conta que isso virava um vício, acompanhar e imaginar as muitas histórias que aquele rapaz devia escrever – essa era sua fantasia. Aquele dia resolveu que não se aproximaria da janela. Iria ler um livro, ver um programa na TV, qualquer outra coisa. Entretanto, nada conseguia prender-lhe a atenção. Tinha vontade de encontrar o rapaz e conversar com ele, contar todas as suas impressões da vida e saber se era realmente um escritor, pois sabia que eles se dariam muito bem, conversariam como se conhecessem há tempos. Mas não tinha coragem para isso, contudo pensava no quanto perdia olhando o tempo passar.

Analisar a vida e os sentimentos era seu passatempo predileto. Acordava cedo, e entre caminhada, metrô e ônibus, demorava até duas horas para chegar ao trabalho. E era nesse momento que pensava na sua solidão, na das outras pessoas; olhava para cada rosto que passava e tentava imaginar suas dores e felicidades, mas tinha talento especial para imaginar a dor. E cada fisionomia contraída doía nela e, não raro, lágrimas indiscretas corriam de seus olhos, pois a dor alheia potenciava a sua própria.

Talvez se alguém a olhasse como ela olhava os outros, desvendassem sua solidão, mas não via ninguém olhá-la, muitas vezes sentia que podia entrar e sair dos lugares como se invisível fosse. Um olhar atento perceberia que aquele sorriso sempre aberto, não era acompanhado pelo olhar, que parecia buscar no além alguma emoção perdida.

Pensava nos amores, nas paixões, imaginava como seria um grande amor correspondido. Não acreditava muito naquele amor imortal que lia nos livros, tinha dificuldade de imaginar que os amantes pudessem se encontrar na mesma sintonia, mas não discutia isso, afinal, era simplesmente a sua impressão e podia estar distorcida por acontecimentos do passado. Se ela sonhava com um amor? Sim, sonhava! Mas era bem despretensiosa, quase distraída no seu querer. Seu amor não precisava ser ilimitado ou imortal, mas precisava de carinho, de respeito, de compreensão, de afago e afeto, de honestidade. Ao definhar o amor, saberia que tinha se entregue por inteira e vivido por inteiro sua emoção, sem máscaras.

Seguia sempre seu caminho com esses e outros tantos pensamentos. Ao encontrar o rapaz da janela, teria com quem conversar sobre seus sentimentos e queria ouvir os dele também. Talvez um escritor necessitasse dessa solidão, talvez não fosse um escritor, talvez não fosse solitário. Somente tinha uma "quase-certeza" que precisavam conversar e tinha medo que não acontecesse, que o tempo passasse e perdesse a oportunidade de encontrá-lo e todo o enredo criado nas longas noites à janela teriam sido em vão.

Naquela noite, não foi até a janela, pegou o livro que jazia na cadeira, abriu em qualquer página e coincidentemente [na verdade não, deve ter aberto nessa página de tanto que buscava aquelas frases] leu nela o trecho sublinhado a lápis de Para uma Avenca Partindo, do Caio Fernando Abreu, que mais gostava:

...deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim dum jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando nascer uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira...em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço...

Enquanto lia isso, novamente sentiu dor no peito, um aperto enorme, não sabia o quê aquilo queria dizer, ou sabia e não queria saber. Largou o livro e foi espreitar a janela. O rapaz não estava mais lá, o tinha perdido de vista, as luzes apagadas. Sentou e tentou não sentir desamparo, respirou fundo, organizou seu próprio espaço como se assim organizasse pensamentos e sentimentos, guardou o livro na estante e foi deitar, desejando que no caminho para o trabalho pudesse acontecer algo inusitado, que lhe fizesse sorrir com os olhos. Tanto lutou que não sentiu desolação e dormiu sorrindo as poucas horas que restavam antes da alvorada.


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sábado, 11 de julho de 2009

sábado, 11 de julho de 2009

Desejo e perigo - o filme

Ou: Dando um tempo de pensar que sei escrever alguma coisa.
Cartaz do filme

Linda fotografia!

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Eu sempre digo que meu gosto nem sempre agrada, mas vou indicar um filme novamente. Um filme chinês, que nem sei se ainda está em cartaz Brasil a fora, mas aqui ainda sim.

Não sabia nada do filme, então fui de curiosa, pelo título: Desejo e Perigo. A história se passa em Shanghai, na década de 40, no período de ocupação da China pelos japoneses, na segunda guerra mundial.

Um grupo de jovens universitários se reúne, primeiro para protestar contra a ocupação por meio de uma peça de teatro e depois eles resolvem formar um grupo de resistência, tentando "eliminar" um chinês, Sr. Yee (Tony Leung), que colaborava com os japoneses.

A trama se desenvolve a partir de uma das estudantes, Chia Chi Wong (Wei Tang), que é escolhida para seduzir Yee por conta do seu talento no teatro, facilitando a ação do restante do grupo. Entretanto, tenho comigo, e isso fica implícito no filme (na minha modesta interpretação), que sedução é uma via de mão dupla, do tipo tudo que vai, volta. E, é esse jogo perigoso que a bonita chinesinha se dispõe a jogar – no início meio a contragosto, por uma causa maior que seria "destruir" um inimigo do seu país.

É claro que não vou contar os meandros e o desfecho do filme, mas posso dizer que para o meu gosto particular é um bom filme, que vale o dinheiro do ingresso e as horas dentro do cinema. O diretor misturou alguns elementos que deram um tempero especial ao filme: política, suspense, romance e sexo. Sem falar que a delicadeza das falas e gestos dos orientais me impressiona bastante, e que, em determinados momentos, são sobrepujados pela paixão e passionalidade. A fotografia do filme também tem tudo de que gosto.

Recomendo para quem se interessa por cinema oriental, que não seja artes marciais.

O diretor é Ang Lee, que é responsável por outros filmes conhecidos como O Segredo de Brokeback Mountain (gostei), O Tigre e o Dragão (que eu gostei também) e (pasmem!) Hulk. O filme também ganhou o prêmio do Festival de Veneza em 2007. Mais alguma coisa? hummm... Desejo e Perigo é baseado em um conto de 1950 do autor chinês Eileen Chang, e dizem por aí que teria sido inspirado em um acontecimento real.


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Se tiver um tempinho, dá uma olhada no Trailer do filme

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domingo, 5 de julho de 2009

domingo, 5 de julho de 2009

Soltos versos, pobres versos

Imagem: internet


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Rodopiava leve.

Buscava o vento para entregar seu segredo.

Dormia mulher e acordava menina.

Acreditava na musicalidade da voz,

que sussurrava docemente ao seu ouvido:

- Preciso abandoná-la, mas te encontrarei na vastidão dos teus sonhos.

Lapidava seu sentimento como uma jóia,

percorria caminhos sem fim, com pés descalços,

na busca da sensatez e tranquilidade, só permitida aos muito loucos.

Assim soprava versos.

Soltos versos, loucos versos, pobres versos!

Que serviam de cajado para continuar rodando,

ou de apoio para sentar no caminho

e esperar quietar o coração.


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sábado, 27 de junho de 2009

sábado, 27 de junho de 2009

Presença ancestral

Angel of Grief - escultura de William Wetmore Story (1894) - Túmulo dele e de sua esposa Emelyn no Cemitério Protestante em Roma

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Ao abrir a porta, foi teu cheiro que primeiro me recebeu.

Por esses dias andavas por perto, sorrateiro, ocupando espaços ao meu redor. Não era visível, mas podia te sentir em quase todas as coisas. Era tanta a certeza de que existias que, todos os meus sentidos notavam tua presença.

Se parasse para pensar nessas sensações não conseguiria uma justificativa plausível para tudo que vinha acontecendo, simplesmente sabia, sentia, vivia esse momento, afinal eu existia por ter esperança. Não importava o quê dissessem, queria ter a esperança dos ignorantes, que morrem acreditando que irão alcançar algo que todos sabem ser inatingível.

A minha certeza sempre foi a de quê, no dia que nos encontrássemos, seria como se já nos conhecêssemos desde sempre, pois nossas almas somente andavam perdidas, extraviando os carinhos, desejos e amores que eram um do outro, mas que ao mesmo tempo amadureciam para nosso encontro definitivo.

Hoje, ignoro quem te beije, mas beijo-te eu no meu pulsar. Ignoro quem te afague, mas afago-te eu no meu deitar. Ignoro quem te faz amor, mas amo-te eu no meu sonhar. E sei que no dia que te encontrar falaremos dos livros que lemos, dos sabores que provamos... vamos discutir pontos de vista discordantes, mas também vamos amar nas noites frias e de muito vento.

Hoje vais dormir e eu vou te encontrar no teu sonho, para que eu possa sentir de perto esse cheiro e esse gosto que ficou na minha memória... memória ancestral! Sei que existes, em algum tempo e em algum lugar, que és meu e sou tua, e vou te encontrar, nem que seja nesse sonho.


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sexta-feira, 12 de junho de 2009

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Mergulho

Imagem: internet


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Estava enredada, como em uma teia de aranha. Identificava os sintomas. Um dia já os havia sentido. Havia experimentado viver momentos felizes, mas felicidade era ente difícil de alcançar, sempre corria à frente.

Inevitavelmente, seus pensamentos viajavam na mesma direção, meses, dias, horas, sempre que a mente divagava. O primeiro pensamento do dia. O último também. Isso quando não invadia seus sonhos.

A ansiedade de um encontro, o frio no estômago que precede novas experiências. A vontade quase incontrolável de viver exclusivamente aquela sensação. Saber que não deve, não é suficiente para tirá-la do devaneio. Enxergar a solidão do sentimento, não a poupava de sentir vontade de mergulhar no poço de águas escuras. Identificar o quão raso é o lago, não bastava para impedir de querer se atirar de cabeça.

Sua alma lhe suplicava prudência, seu coração e seu corpo, lhe gritavam que queriam continuar, mesmo que ao emergir, restassem somente feridas a curar. Sabe tudo, sabe cada mínimo sentimento e angústia, mas nenhum conhecimento a livra da dor que essa entrega solitária irá provocar.


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terça-feira, 9 de junho de 2009

terça-feira, 9 de junho de 2009

Nave

Imagem: internet

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Depressa!
Uma nave vem surgindo!
Naquela seta, ou será naquela árvore?
...
Não é uma nave.
é uma Lua, um satélite,
um Ser Órfão em busca de companhia.
...
Me dá teu brilho
e me entrego por ti.
Sou nave no céu da tua existência.
Céu infinitamente azul ou negro.
A cor não importa, face prata,
corrida, procura, desilusão.
...
Também sou só,
Me encontro, te cobre,
Me alimenta.
...
Um Deus, um Poeta,
que espreita teu corpo,
Se lava no meu,
Se compadece e endoidece.
...
Na tua imagem me envaideço
Te capturo, e presa, sonhas
os sonhos de todos, comigo,
em mim.
Mas te liberto, não sufoco teu brilho.
Te liberto para alcançar minha liberdade,
meu desejo.
...
Encontrarás um Sol,
e me trarás um Astro.
De longe te encontro, por fases,
por ciclos.
No cosmo, um amor completo,
irreal e brilhante.
Navego sempre, contigo,
em ti,

a nave,
o abrigo estelar...

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quinta-feira, 4 de junho de 2009

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vertigem em sonho

Imagem: peguei na internet


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Sentada, em algum lugar qualquer, a sensação que tenho é que a luz vai findar, o som da música irá sumir e todos os sentidos desaparecerão. A queda é inevitável, o abismo é profundo e toma o corpo desprevenido. Assim, flutuo numa descida vertical.

Resisto à queda tensionando meus músculos, deixando em alerta meus sentidos. Passado o primeiro momento de surpresa, relaxo e me deixo levar pela leveza do vácuo e pelo inusitado da situação. Aproveito a viagem em queda livre e ouso lembrar de ti, sentindo tua presença ao meu lado. Logo, tua imagem é física e sinto teus abraços e o carinho que me toca em ondas, vejo teu rosto que me sorri e teu corpo que se oferece ao meu. O voo segue, e é uma espécie de desmaio o que sinto, só não distingo se é da queda ou do cheiro que se desprende do teu corpo que me acompanha nessa alucinante vertigem.

Não se diferencia mais prazer e medo. Meu cérebro só registra teu cheiro e teu calor. Há em mim um prazer inusitado, sem medida e navego no ar. A queda diminui até estancar definitivamente e tenho a certeza que isso não foi ilusão. Mas minhas pálpebras se abrem buscando ao redor sinais de ti e da tua perplexidade, ao olhar meus olhos iluminados da viagem e úmidos por saber que os sonhos nem sempre são possíveis (de realizar!).

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segunda-feira, 1 de junho de 2009

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Poesia Matemática - Millôr Fernandes

Imagem: Rude Rucker - achei a imagem e curiosidade: o pintor é matemático!!! Descobri AQUI

E já que maio é findo, junho pede urgência! Urgência de tantas coisas! Se maio eu considerei um mês romântico e feminino, junho é o mês dos namorados. Mas isso é história para um outro post.

Mas pegando carona no tema do namoro e considerando que chegaram tantas pessoas aqui, no Sopros, buscando a Poesia Matemática do Millôr Fernandes, vou deixá-la para que possam conferir esse poema interessante. Pareço inspirada para posts, blogs e coisas do gênero?


Poesia Matemática - Millôr Fernandes


Às folhas tantas do livro matemático

um Quociente apaixonou-se um dia doidamente

por uma Incógnita.

Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a do ápice à base

uma figura ímpar;

olhos rombóides, boca trapezóide, corpo retangular, seios esferóides.

Fez de sua uma vida paralela à dela

até que se encontraram no infinito.

"Quem és tu?", indagou ele em ânsia radical.

"Sou a soma do quadrado dos catetos.

Mas pode me chamar de Hipotenusa."

E de falarem descobriram que eram

(o que em aritmética corresponde a almas irmãs)

primos entre si.

E assim se amaram

ao quadrado da velocidade da luz

numa sexta potenciação traçando ao sabor do momento

e da paixão

retas, curvas, círculos e linhas sinoidais

nos jardins da quarta dimensão.

Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana

e os exegetas do Universo Finito.

Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. E enfim resolveram se casar

constituir um lar, mais que um lar, um perpendicular.

Convidaram para padrinhoso Poliedro e a Bissetriz.

E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro

sonhando com uma felicidade integral e diferencial.

E se casaram e tiveram uma secante e três cones

muito engraçadinhos.

E foram felizes até aquele dia em que tudo vira afinal monotonia.

Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum

freqüentador de círculos concêntricos, viciosos.

Ofereceu-lhe, a ela,

uma grandeza absoluta

e reduziu-a a um denominador comum.

Ele, Quociente, percebeu que com ela não formava mais um todo,

uma unidade.

Era o triângulo, tanto chamado amoroso.

Desse problema ela era uma fração, a mais ordinária.

Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade

e tudo que era espúrio passou a ser moralidade

como aliás em qualquer sociedade.


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quinta-feira, 28 de maio de 2009

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Enquanto Maio...Poesia de Hilda Hilst

Imagem: Lover Tree - Jia Lu


Maio está quase chegando ao fim. O tempo passa voando mesmo. Há dias que acho isso ruim e em outros que nem tanto. Mas enquanto o fim de maio não chega, vou mostrar mais uma poesia “feminina”.

Desta vez escolhi Hilda Hilst. Desde que li os poemas de Hilda no livro Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão, encantei-me por sua poesia. Não creio que seja necessário apresentá-la, mas vai que tem alguém que não a conhece?

Hilda Hilst nasceu em Jaú (SP) em 21 de abril de 1930 e morou desde 1965 na chácara Casa do Sol, em Campinas (SP). (Creio que tenha sido nessa chácara que Caio Fernando Abreu - já falei do Caio AQUI - se refugiou da ditadura militar). Ela formou-se em Direito pela USP e desde 1954 se dedicou à literatura. Considerada um dos principais nomes da literatura brasileira contemporânea. Faleceu em 4 de fevereiro de 2004.

O poema que vou mostrar faz parte do livro que citei acima e consta do capitulo Prelúdios - intensos para os desmemoriados do amor. Como de hábito li vários para escolher, mas como costumava dizer aqui no blog, eu não tenho escolhido poesias, trechos e autores. Eles se escolhem, pela forma impactante com que me atravessam a alma. Fico encantada e meio presa num visgo, não tendo como fugir dela(e)s.

Então, ao poema de Hilda!


***


I


Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento
Um sol de diamante alimentando o ventre.
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jugo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.


[Prelúdios - intensos para os desmemoriados do amor – Poema I – Hilda Hilst]
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quinta-feira, 21 de maio de 2009

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Viagem no vento

Ophelia - John William Waterhouse - 1905

Se pudesse ser o vento, viajaria agora ao teu encontro.

Te buscava por todos os cantos.

E ao te encontrar, acariciava teu rosto com leve brisa,

depois, mais forte, atravessava tuas vestes,

para alcançar tua pele,

e deixar em ti, o frio da minha ausência.

Só então seguiria viagem,

Até adormecer solitária em qualquer (c)(m)anto.

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domingo, 17 de maio de 2009

domingo, 17 de maio de 2009

A poesia do encontro – Elisa Lucinda, Rubem Alves e mais Cecília Meireles

Peter Ilsted - A Girl Reading in an Interiror



Título alternativo: Um encontro de amigos

O título do post tem vários significados. Primeiro é o título de um livro. Estava procurando uma poesia – de uma poetisa – e acabei relendo algumas autoras e muitos poemas (como é bom ler poesia!).

Buscando meus livros, lembrei que tinha comprado um livro no aeroporto de Brasília, ano passado (acho). O livro chama-se Poesia do Encontro. É uma “conversa” sobre poesia entre Elisa Lucinda e Rubem Alves.

Elisa Lucinda é poetisa, atriz e cantora. Rubem Alves é um escritor de crônicas e histórias infantis. O interessante desse livro, é que eles vão conversando e lembrando poesias. Elisa criou, no Rio de Janeiro, a Casa do Poema e ensina interpretação de poesia. O lema lá é: “falando poesia sem ser chato”. Ela faz oficinas pelo Brasil e conta histórias interessantes de sua experiência. Dá vontade de “declamar poesia” junto com eles. Sem falar que, ainda contam as histórias de alguns poemas famosos e recitam.

Segundo: me lembrei deste livro, pois foi lá que reli um poema do Millôr Fernandes, chamado Poesia Matemática. E surgiu o poema na mente, por causa do Amarísio, amigo que encontrei aqui no blog, professor de matemática, que fez aniversário este mês. Desta vez não vou postar o poema, pois minha intenção é continuar com as meninas poetas. Vou deixar para outra oportunidade, mas recomendo o livro de Rubem e Elisa.

Seguindo a busca por um poema, li muitos esses dias, pois queria encontrar um especial. O problema é que todos os que li me pareciam especiais. Li Adélia Prado, Emily Dickinson, Florbela Espanca, Hilda Hilst...Não li Clarice, pois é um perigo. Li Cecília Meireles e optei por ela, mas mesmo escolhendo a poetisa, mais difícil é selecionar o poema. São tantos e tão lindos. Pudesse postava todos que me gritaram mais alto à alma. Fiquei com Canção do Caminho, querendo muitos outros. Vamos a ele!


***

Canção do Caminho - Cecília Meireles


Por aqui vou sem programa,
sem rumo,
sem nenhum itinerário.

O destino de quem ama
é vário,
como o trajeto do fumo.

Minha canção vai comigo.
Vai doce.
Tão sereno é seu compasso
que penso em ti, meu amigo.
- Se fosse,
em vez da canção, teu braço!

Ah! Mas logo ali adiante
- tão perto! –
acaba-se a terra bela.
Para este pequeno instante,
decerto,
é melhor ir só com ela.

(Isso são coisas que digo,
que invento,
para achar a vida boa...
A canção que vai comigo
é a forma de esquecimento
do sonho sonhado à toa...)

***
[Post dedicado ao Amarísio - Blog Recanto dos Sonhos]
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terça-feira, 12 de maio de 2009

terça-feira, 12 de maio de 2009

Virando a página e poesia de Emily Dickinson

Peguei na internet

A metáfora é antiga: a vida é como um livro aberto. E alguns ainda fazem alguma brincadeira, dizendo que a vida é um livro aberto com algumas páginas arrancadas, enfim, é uma imagem interessante, visualizar-nos escrevendo a história da nossa existência!

Queria virar a página e mesmo com muitas atribulações por aqui, pouco tempo, cansaço, resolvi mudar de assunto, mas ainda permanecer com poesia.

Quando fui procurar a imagem de um “livro aberto” na rede, achei esse e mais uma frase, atribuída ao Saramago e resolvi colocar aqui, pois me pareceu apropriado (apropriado a quê?! a tudo!!!). Diz o seguinte: "É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido”. Sem mais comentários, volto o meu barco para o rumo que eu ia dar, antes de encontrar a frase.

Como o mês de maio é conhecido como o mês das mães, das noivas, de Maria (estudei em colégio de freiras, mês de maio era mês de muita reza), é um mês de mulheres. Por essa razão, este mês, quando eu atualizar o blog, vou postar poesias de mulheres. Nenhuma referência a feminismo - por favor - só quero sentir e compartilhar o pulsar, o olhar, as referências de mulheres que escrevem coisas belas, como foi o caso do poema da Adélia. Por agora, viro a página e encontro Emily Dickinson.


***

À noite, como deve sentir-se solitário o vento
Quando todos apagam a luz
E quem possui um abrigo
Fecha a janela e vai dormir

Ao meio-dia, como deve sentir-se imponente o vento
Ao pisar em incorpórea música,
Corrigindo erros do firmamento
E limpando a cena.

Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento
Ao se deter em mil auroras,
Desposando cada uma, rejeitando todas
E voando para seu esguio templo, depois.

[Emily Dickinson]
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domingo, 10 de maio de 2009

domingo, 10 de maio de 2009

Mais uma consideração e Adélia Prado

Serenata - peguei na internet

Tem horas que sinto vontade de vir aqui e atualizar o blog, mas acho que esgotei todas as palavras, que não são muitas. Tem horas que tenho vontade de dar um tempo para ele (o blog) e para mim (e para os leitores também), mas confesso que não tenho muita coragem. Tenho um apego meio exagerado por determinadas coisas e determinadas pessoas (digo isso, por que o apego não é aquele apego material e dizendo assim pode parecer!). Essas primeiras palavras são o reflexo do meu humor, nada interessante por esses dias (e não é TPM!).

Mas resolvi atualizar, só para atualizar. E resgatando um pouco do que era o blog um tempo atrás (antes de eu inventar de escrever!) vou me socorrer com versos de outros. No caso, outra, Adélia Prado. Fui escolher um poema dela e é tanta coisa linda que dá vontade de colocar todos por aqui.

***
Sopro de Adélia Prado – A serenata

Uma noite de lua pálida e gerânios
ele viria com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
De que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
- só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
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sexta-feira, 1 de maio de 2009

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Estrelas no pensamento

EMBRACE - Jia Lu [Pintora chinesa] - Se quiser ver mais AQUI


Olhe, veja em volta. É noite, nenhuma luz acesa, a lua crescente se escondeu atrás da única nuvem e apesar disso, à nossa volta tudo brilha. São tantas estrelas salpicando o céu, que parece uma chuva de purpurina. Como no dia que olhávamos os fogos de artifício sobre nossas cabeças e seguraste minha mão gelada. O sopro de vento que despenteou meus cabelos e fez minhas roupas levitarem suavemente, produziu um arrepio na minha pele, mas o calor morno dos teus dedos, apertando suavemente os meus, acendeu um carinho que inundou meu corpo inteiro.

Foram dias felizes, mas fulgazes. Queria te ter sempre ao meu lado, segurando e aquecendo minhas mãos. De lá até aqui, nossos dias foram de encontros e afastamentos, nossos caminhos não se encontravam, mesmo que eu sempre buscasse formas de ter ver, te ter, te sentir. No meu peito sempre pulsava um bem querer, que alimentava a esperança de um encontro definitivo. Nos meus dias, pintava na imaginação o momento que, enfim, seríamos dois e não um em cada lugar. A pintura desse sonho, gravada na memória, tinha o brilho desta noite estrelada.

Hoje, o som das ondas - atirando-se insensatas contra o rochedo - é a única canção que conseguimos ouvir e o teu corpo o único cobertor que quero sentir envolver a nudez do meu. Levarei para a eternidade o sabor do teu beijo e o calor que agora me faz estremecer, ao olhar teus olhos sonolentos. Se eu dormir, quero sonhar que tudo vai permanecer assim, para sempre.
***
Não sou escritora, apesar de não poder negar a pretensão, já que fico escrevendo "coisas" aqui no blog. O texto acima, apesar de estar na primeira pessoa, não é uma "experiência pessoal", e sim um simples exercício de escrita e ficção.
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segunda-feira, 20 de abril de 2009

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Percorrendo caminhos e estações

Boreas - John William Waterhouse - 1903



As estações do ano lhe traziam diferentes sensações. No inverno buscava o fogo que aquecesse sua alma. No verão, tudo que mais desejava era uma brisa que abrandasse o calor e aquietasse seu coração. E a cada vontade ou desejo, o corpo ia respondendo igualmente aos seus anseios.

Nos primeiros dias outonais, tentava imaginar alegrias e prazeres, mas a melancolia apoderava-se dela e aprisionava seus pensamentos. Exercitava visualizar dias felizes, passados nas estações anteriores para conservar um “melhor-do-bom” que havia sentido. Imagens povoavam sua mente, sons e vozes dissipavam a dor e transformavam as recordações em sentimentos inexplicáveis, subterfúgio para o amor, invenções para a vida.

Buscava atalhos ou percorria longos caminhos para fugir do sofrimento. Sentia vontades, vontades de viver emoções inusitadas, ansiava por um carinho que nem sabia qual era, mas que não se comparava com o que já havia vivenciado.

As estações mudavam e as lembranças iam se diluindo, como se outra pessoa tivesse vivido aquelas lembranças. Na transição, acordava como de um idílio e repensava a vida para se reinventar uma vez mais.

Num dia, dobrou a esquina, olhou para o céu e viu uma nesga de lua, crescendo. Encarou a longa e larga rua, pisou firme, lá adiante poderia ter mais um atalho.
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domingo, 5 de abril de 2009

domingo, 5 de abril de 2009

Aromas e sentimentos

[Memory of that house (2001) - Iman Maleki - pintor realista iraniano - vale muito conhecer suas obras - Aqui ]


Sozinha, vinham no seu sentir, uns aromas que lhe remetiam ao lugar onde queria estar. Talvez no passado, que nunca existiu. Ou num futuro, que jamais aconteceria.

Um aperto no peito lhe enchia de tristeza e respirava mais fundo, no intuito de que o cheiro lhe transportasse ou que esquecesse os sonhos que não se tornariam realidade.

Insistia num viver morno, mesmo querendo fogo ardente. Mas sempre compunha a vida com equívocos e por isso talvez fosse difícil imaginar um abrigo que acalmasse o coração.

Sorria tristemente por esses pensamentos e rápido imaginava outro sentir, que afastasse o aroma que lhe deixava tão sensível.
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quarta-feira, 1 de abril de 2009

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Delírios

Singing Fish - Miró



[Definitivamente devo andar delirando. Sem muito que escrever no blog, escrevo delírios. Perdoe-me quem ler as bobagens]


No principio um azul, de verdade não era uma cor.
Deslizando o pincel se tornou um cinza. Não confundir com dor!
Piruetas e estilhaços - se formou um marrom e bebida não inventou.
De repente, bum! Uma infinidade de tonalidades de encarnado, só que não sangrou.
O amarelo se insinuou com um pinto quebrando o ovo e não emitiu sequer um som.
Quem lambuzou o verde? Mas nem germinou!!
Para onde vai me levar o delírio, ainda não descobri. É uma infinidade de possibilidades no que sinto. Agora simplesmente não quero cor. Quero o calor para me representar! E um pouco de som. E minha viagem se completando fora de órbita. Sequência? Que sequência? Não há sequência. Eu quero correr e se gritar não há porque se espantar.
A cor se mantém, quero cantar. E porque não... pintar?
Os estilhaços do marrom arrebentaram o vermelho, jorrou sangue, que tingiu o cinza e se espalhou como gema. Socorreu o azul evitando a hemorragia definitiva. Soprou um vento e sacudiu o verde.
O coração - cansado - se quietou e gelou.
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domingo, 29 de março de 2009

domingo, 29 de março de 2009

Alucinação

Summer interior - Edward Hopper (1909)



Naquela noite fora dormir bem mais cedo que de costume. Dormia pouco, no máximo seis horas, quando a maioria das pessoas que conhecia, não podiam dormir menos que oito. Mas não poderia ser rotulada de insone, dormia. Vinha de um cansaço que não saberia explicar. Acabara de voltar de férias, que sempre lhe deixava com vigor para uma nova temporada de trabalho árduo. Gostava do seu oficio, então não entendia esse cansaço profundo que vinha sentindo.

É verdade que esse ano o escritório estava fervilhando: relatórios, processos e aqueles telefones que não paravam de tocar. O tempo continuava quente, o outono demorava a se instalar para refrescar seus dias. Perscrutava cada um dos fatores em sua rotina que pudesse estar lhe causando esse desconforto interno, seu cansaço, sua tristeza. Gostava de entender tudo. Sofria e vivia. E queria entender.

O certo é que acordou no meio da noite como se já fosse dia e seus pensamentos rodopiaram numa ciranda incessante. Queria se entender. Imagens e sons. Vozes e palavras. Imaginou que fosse alucinar. Tudo rodava. Havia uma porta, que estivera lá por anos e que deixava transparecer uma escuridão. Nunca tinha ousado atravessá-la... até um certo dia. No início sentiu falta de ar, depois falta da luz, mas aos poucos sua retina se adaptou ao escuro, à situação. E uma voz lhe direcionava e ia tateando aquele mundo obscuro. Não saberia descrever suas sensações: prazer, alegria, euforia, medo, dor... e, lá no fundo, uma intuição de sofrimento... queria seguir e queria voltar.

Imergiu nesses pensamentos e quando percebeu era dia. Não sabia ao certo se pensara ou se sonhara todas as imagens, sons e sensações. Um segundo e uma convicção lhe aflorou à mente: não podia confundir o sonho com realidade, sua dor e cansaço talvez tivessem origem nessa confusão. Decidiu levantar. Tomou nas mãos poesias, enrolou-as em papel de seda azul e vermelho, abriu a porta, depositou tudo no fundo da prateleira da esquerda, fechou à chave e guardou-a junto ao coração.
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sábado, 21 de março de 2009

sábado, 21 de março de 2009

Sons, sabores e cores de sábado



Pois que os sábados eram dias quentes, independente da estação do ano. Nunca era tão frio que dispensasse sua rotina agradável do inicio do fim de semana. Acordava tarde, tomava seu café sem açúcar – pois o amargor lhe agradava. Sentada na varanda da casa, cumprimentava os vizinhos que passavam conversando a caminho da feira, carregando as sacolas multicores. O dia era sempre colorido: verdes, amarelos, vermelhos, que brotavam de todos os lados, derramavam-se e tingiam seu olhar sorridente.


No sábado organizava suas roupas para lavá-las e aprontá-las para a nova semana. Tirava o pó da casa, trocava a roupa de cama, as toalhas de banho. Colocava uma música a tocar e a melodia espalhava esperança. O almoço era simples, mas comida caseira, elaborada sem correrias. A salada de frutas de sobremesa, muito bem preparada, com as frutas sendo cortadas e organizadas delicadamente, como se fossem pinceladas de tinta sobre uma tela. O sabor deliciava todos que provavam aquela mistura deliciosa, comendo devagar e tentando desvendar todos os sabores em particular. E ao morder cada pedacinho, sentir o sumo inundar a boca, um prazer quase proibido!


Também reservava, na tarde de sábado, um período para a sesta, um soninho curto, mas renovador. Depois acordar, pintar as unhas, lavar o cabelo, escolher com cuidado a roupa e as sandálias de salto para ir ao cinema, no inicio da noite, de mãos dadas com seu amor. Jantar e retornar refeita da rotina da semana.


O domingo chegava com a promessa de que tudo seria melhor. Almoço em família completava seu cenário de fim de semana. Havia realizado sua catarse semanal. Era uma rotina modesta, mas a rotina que lhe dava prazer e lhe fazia feliz.


[Post que publiquei no extinto Blog Tagarelas Assumidas em 2008, com pequenas modificações]
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domingo, 15 de março de 2009

domingo, 15 de março de 2009

Música e História

Peguei no mesmo endereço indicado abaixo

Dezembro. Final de ano é sempre muito corrido. Mil coisas para deixar em dia, no trabalho na vida pessoal, para então aproveitar uns dias ao lado da família. Mas antes disso, muita água rola por baixo da ponte. A vida é uma gangorra ou uma roda gigante ou uma montanha russa. Um dia tranqüilo e outros cheios de grandes emoções. Se fosse diferente, creio que acharíamos muito chato. Mas tem coisas que podíamos perfeitamente passar sem.

Eu correndo de um lugar para outro para resolver problemas de trabalho. Chove em Porto Alegre, horário do almoço. E já que não vai dar tempo de almoçar, aguardo um pouco para ver se a chuva diminui. Olhei pro lado e vi que estava acontecendo uma exposição, no hall de entrada do cinema universitário. Cartaz enorme, com uma foto antiga do Rio de Janeiro e o rosto de um homem, que me chamou a atenção e atravessei para olhar.

O homenageado: João Cândido, o Almirante Negro. Pensei: quem deve ser? Nunca tinha ouvido falar. E comecei a ler a história desse homem, cuja luta eu não aprendi na escola. João Cândido, marinheiro gaúcho, nascido em 24 de janeiro de 1880 morreu aos 89 anos.

No início do século XX, ano de 1910, durante alguns dias, mais de dois mil marujos movimentaram a Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, ao tomarem posse de navios de guerra para exigir o fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil.

Em abril de 1910, o navio blindado “Minas Gerais” chegou à Baia da Guanabara, era o navio mais bem equipado do mundo, mas, as questões de regime de trabalho, o recrutamento dos marujos, as normas disciplinares e a alimentação deixavam a desejar. O retardamento das reformas nessas áreas fazia lembrar os anos dos navios negreiros. Tudo na Marinha, Código Disciplinar e recrutamento, principalmente, ainda eram iguais ao da monarquia. Homens de bem, criminosos, marginais eram juntamente recrutados para servirem obrigatoriamente durante 10 a 15 anos e, a desobediência ao regulamento tinha a punição de chibatadas e outros castigos.

Mas, em 16 de novembro de 1889, Deodoro da Fonseca, através do Decreto nº 3 – um dia depois da Proclamação da República – acabou com os castigos corporais na Marinha do Brasil mas, um ano depois tornou a legalizá-los: “Para as faltas leves, prisão e ferro na solitária, a pão e água; faltas leves repetidas, idem idem por seis dias; faltas graves 25 chibatadas”.

Os marujos não aceitaram e começaram a conspirar, principalmente alguns que estiveram na Inglaterra e viram a diferença de tratamento dos que lá eram recrutados. Em 22 de novembro de 1910, comandado por João Cândido Felisberto, a Revolta da Chibata eclodiu. João Cândido assumiu a esquadra de “Minas Gerais”. No combate morreram o Comandante Batista das Neves, alguns oficiais e muitos marinheiros.

Como não tinha outro jeito a dar – eram 2.379 rebeldes – e estavam com as mais modernas armas que existiam na época, o Marechal Hermes da Costa e o parlamento cederam às exigências, aprovaram um projeto idealizado por Rui Barbosa – que tinha apoiado o retorno dos castigos anteriormente – pondo fim aos castigos e concedendo anistia aos revoltosos. [ Tirei esse texto daqui ].

Ao ler a história do Almirante Negro, também descobri que este foi homenageado na música de Aldir Blanc e João Bosco – Mestre Sala dos Mares. Sempre gostei das músicas cantadas pelo João Bosco, mas não sabia que essa música era uma homenagem a esse personagem da história do Brasil. Pode até ser que eu esteja enganada, mas creio que recordaria se tivesse estudado sobre ele...mesmo que tenha sido há um bom tempo atrás...

Após outro levante na Marinha, ele foi expulso, banido da corporação, mesmo não tendo participado. Viveu precariamente, trabalhando de estivador e descarregando peixe na praça XV no Rio de Janeiro.

O presidente Luis Inácio Lula da Silva assinou em 23 de julho de 2008 uma Lei concedendo anistia póstuma a João Cândido Felisberto. Uma homenagem tardia, mas necessária a um homem que lutou, não por interesse próprio, mas por uma causa justa para muitos.

***
A música Mestre Sala dos Mares - Aldir Blac e João Bosco - com Elis

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quarta-feira, 11 de março de 2009

quarta-feira, 11 de março de 2009

Consideração sobre música do Chico

Imagem da Internet

Um dia desses postei uma música do Carlinhos Brown e comentei que tenho uma mania de ficar ouvindo uma mesma música durante dias a fio. Sábado, quando escrevia o texto sobre mulher, veio uma frase na cabeça: não se afobe! Imediatamente me remeteu a música do Chico – Futuros Amantes - e coloquei aqui no blog.

Hoje, entre uma leitura de trabalho e outra, fui ao youtube buscar uma música qualquer para ouvir enquanto trabalhava, pois adoro ouvir música enquanto escrevo, leio. Tem pessoas que perdem a concentração, eu não. Então me lembrei de verificar se havia um clipe com Futuros Amantes. Não só havia como encontrei o Chico comentando a música, com a linda imagem dele, e outras da linda cidade do Rio de Janeiro. Não resisti! Resolvi compartilhar com quem passa por aqui. Eu acho que vale a pena olhar.

Bom, sigo com a música na cabeça. Um professor meu, disse um dia, que essa perseguição é um tipo de epilepsia, a epilepsia do lobo temporal. É como uma descarga contínua de neurotransmissor nessa área do cérebro. E faz todo sentido, com tudo que entendemos hoje sobre o sistema nervoso central.
Se fosse só a música do Chico já seria o máximo, mas ele comentando... Ah, eu não resisto!


***

O vídeo - Futuros Amantes

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sábado, 7 de março de 2009

sábado, 7 de março de 2009

Mulher: complexo abrigo


Olhou a casa sufocada entre altos prédios. De novo sua mente fez acrobacias e ela sentiu-se meio como a casa. Uma mulher, que muitas vezes se sentia uma menina, amedrontada com as inúmeras possibilidades e desafios que a vida ia lhe oferecendo. E tinha ímpetos de ir a um jardim e ficar em companhia do vento, das árvores e das flores. Gostava do vento: do vento leve, da brisa, mas também tinha uma adoração pela ventania. As pessoas não compreendiam quando comentava que gostava de tempestades. Mas gostava e podia sentir o cheiro delas se aproximando. Entre árvores e brisa, ela sentia-se segura, acalentada, como as crianças quando se apegam aos seus amigos de pelúcia e aquilo lhes proporciona conforto. Também imaginava que era a brisa, e sendo brisa poderia ir tocar seus amores distantes.

Voltou a mirar a velha casa... sem dúvida era ela e aqueles prédios gigantes, monstros de toda espécie que tinha de enfrentar todos os dias. Era forte e resistia, mas era complexa demais e complicada demais para se explicar. Era mulher e era uma casa, e era menina e era um refúgio, e sorria e lutava quando tinha que defender suas crenças; e era rígida e era flexível. Tinha uns não-sei-o-quê que surgiam de vez em quando, que lhe deixava abatida, e não queria compactuar com sofrimento, mas era estranha, era mulher e era humana - mesmo que por vezes se sentisse como se não fosse desse planeta! Uma casa antiga no meio de muito concreto na megalópole. Mas sim, era humana e como todo ser humano cheia de “grandes-pequenos” defeitos, de “pequenas-grandes virtudes”. Sucumbia em ser... humana.

Amava e sofria por amor, e rejeitava sofrer por amor; distribuía afeto e recebia afeto, que nem sempre lhe parecia amainar a sua necessidade; sentia raiva e dizia que sentia, mas também não dizia e sofria por sentir a raiva. Quando parava para pensar sobre amor e raiva, o sentimento que permanecia nela, acima de todos os outros, era um... certo amor incondicional pela humanidade. E era por isso que acreditava, que um dia – que podia ser muito distante – a humanidade deixaria de maltratar uns aos outros. Sorria ao pensar nisso e chorava por imaginar o hoje.

Talvez fossem aqueles hormônios que deixavam a mulher, a menina, tão complexa e mesmo aquelas que não eram mães se comportavam um pouco, em algum momento da vida, como se o fossem, oferecendo seu coração e seu corpo como casa, como abrigo, numa docemente dolorosa rotina de perdas e ganhos. Olhou mais uma vez aquela imagem e sentiu sufocar, como a casa. Seguiu seu caminho, não olhou mais para trás.
***
[O dia 08 de março é considerado o dia internacional da mulher para lembrar o fato ocorrido em Nova Iorque, no qual mulheres trabalhadoras da indústria téxtil protestavam contras às más condições de trabalho e a morte de outras em um incêndio criminoso durante os protestos. Desconsiderando o sectarismo feminista, pode-se tomar esse dia como um marco histórico no caminho da mudança das diferenças econômicas, sociais e políticas entre homens e mulheres. Minha convicção é por igualdade entre pessoas, seres humanos. E é esse equlíbrio, que creio necessário].
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Noite Urbana

Foto minha

Olhava o mundo por aquela janela. Dali já viajara para muitos cantos do mundo, só percebendo a forma dos prédios, janelas vizinhas, passantes, automóveis. Sua imaginação corria livre ao olhar as luzes da cidade.

Paisagem estéril, diriam alguns, mas para ela tudo ali tinha vida. A cortina do vizinho do prédio da esquerda, o grafite no muro do estacionamento mais lá adiante, a árvore que parecia morta no inverno e renascia na primavera.

Daquela janela, já encontrara seu amor, que passava por ali distraído, numa noite fria e que por algum motivo olhou para cima, e a viu, e sorriu. Seguiu com o olhar enquanto ele entrava três prédios adiante do seu. Noutro dia o encontrou na rua muito cedo e ele lhe deu bom dia, com o sorriso mais encantador que ela jamais imaginara existir. Não mais o encontrou, mas esperava todas as noites, na mesma hora, que ele surgisse na esquina e olhasse para a sua janela.

Dali, conversava com a lua cheia em noites de céu claro e sentia como se o brilho fosse exclusivamente para ela. Mas sabia que em algum canto, por trás de tantas janelas, havia casais se amando, estimulados por essa mesma lua. Sentia um calor e quase um aconchego saber disso.

A sua janela enquadrava uma pintura, uma pintura urbana. Pintura impregnada de vida, de encontros, de desencontros, de sentimentos, de desilusões, de cheiros, de cores, de alegrias - como daquela vez que assistiu a senhora de sessenta anos, que morava sozinha, no prédio bem em frente ao seu, receber a visita dos netinhos - de tristezas, de frustrações, de celebração.

Gostava de sonhar ali e quem olhasse de frente, veria um quadro, com uma moça pintada em tons pastel, com o olhar sonhador, como quem aguarda talvez um amor, talvez a felicidade, talvez não, talvez somente admirando a noite urbana.

Com todos esses pensamentos, o rapaz que morava no prédio da outra rua e que enxergava a moça na janela, fechou a cortina e foi deitar-se, talvez para também sonhar. Ou talvez imaginar um conto de solidão na noite urbana.
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Carnaval: Pierrô, Colombina e Arlequim



Imagens de Pierrô, Arlequim
***

Não lembro o dia, mas estava pensando em carnaval. É assim, não sei o dia, não sei o porquê, nem o que pensei, mas imediatamente lembrei-me da história doPierrô, Colombina e Arlequim e da marchinha de carnaval, do Noel Rosa (um Pierrô apaixonado, que vivia só cantando, por causa de uma Colombina, acabou chorando, acabou chorando...um grande amor tem sempre um triste fim... – será? Que chato isso!). Bem, voltando o barco para o objetivo inicial [escrevendo aqui e tentando não ser prolixa, pois esse tema me deu vários insights], pois caso contrário isso não poderá ser um único post.Ao lembrar-me desses personagens, primeiro na música, pensei em ir buscar a origem da história no teatro, pois já havia lido e não lembrava. Esses personagens fazem parte de um estilo teatral nascido na Itália no século XV e difundido depois na França, chamado Commedia dell’Arte. Foi um forma de teatro popular improvisado, que se opunha à Comédia Erudita – em latim e pouco acessível - e também foi conhecida como Commedia All’improviso. As apresentações ocorriam em praças e ruas, em pequenos palcos improvisados ou em carroças. Em geral as companhias teatrais eram familiares e itinerantes, seguiam apenas um roteiro, chamado canovacci, mas os atores tinham liberdade de criação. Os personagens eram fixos e muitos atores representavam o mesmo papel até a sua morte.

O centro da trama dos três personagens é um triângulo amoroso e uma sátira social:Pierrô ama Colombina, que ama Arlequim, que, por sua vez, também deseja Colombina. A história do trio enamorado era um entretenimento popular, de origem influenciada pelas brincadeiras de Carnaval. Além dos três, havia um comerciante avarento (Pantaleão), um intelectual pomposo (Doutor) e um oficial covarde, mas “disfarçado” de valentão (Capitão), entre outros.

Em relação aos personagens centrais: Pierrot foi o nome que Pedrolino ganhou na França no século XIX, era o mais pobre dos personagens, com rosto pintado de branco e sem máscara. Inspirou a fantasia dos palhaços, pois era o que mais sofria com brincadeiras, por conta de seu amor pela Colombina, era um servo de Pantaleão. Assim também o era Arlequim, um espertalhão preguiçoso e insolente, que queria se passar por ingênuo e estúpido, fazia passos acrobáticos pelo palco e debochava pregando peças nos outros personagens, e tentando escapar com agilidade das confusões que criadas por ele. Sua vestimenta de losangos completava a caracterização. Colombina era a criada de uma filha de Pantaleão, tão bela e refinada quanto sua ama. Para despertar o amor de Arlequim, cantava canções românticas e dançava nos espetáculos. O sofrimento do Pierrô inspirou muitos versos, como a divertida marchinha do Noel Rosa (vá tomar sorvete com o Arlequim)...

Depois de toda essa leitura e escrita, ainda senti vontade de escrever uma história diferente para a Colombina...E escrevi os versos abaixo:

Colombina sentiu a dor

Que não queria,

Na noite anterior,

havia encontrado seu Pierrô na avenida,

E disse a ele, que quando dançava, dançava para ele,

Que quando cantava, cantava por ele,

Que seus suspiros eram de saudade dele...

e pela impossibilidade de tê-lo ao seu lado.

Nada do quê Arlequim quisesse fazer parecer mudaria,

seus sentimentos profundos

Por ele, Pierrô...

Suas lágrimas, sua tristeza, sua alegria

Sua esperança era ele, por ele,

mas nessa noite

ao procurá-lo na avenida

só viu seu rosto branco

beijando uma boca vermelha

que não era a sua

***


Bom Carnaval ou bom feriadão para quem passar por aqui!
***

Originalmente publicado em fevereiro de 2009

***
E a quem interessar a música de Noel Rosa e Heitor dos Prezres:

Um pierrô apaixonado

Que vivia só cantando

Por causa de uma colombina

Acabou chorando, acabou chorando

A colombina entrou num butiquim

Bebeu, bebeu, saiu assim, assim

Dizendo: pierrô cacete

Vai tomar sorvete com o arlequim

Um grande amor tem sempre um triste fim

Com o pierrô aconteceu assim

Levando esse grande chute

Foi tomar vermute com amendoim


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Equilíbrio


Buscava o equilíbrio, toda sua energia era despendida com o intuito de equilibrar-se vida à fora.
Tinha descoberto muito tempo atrás que sua tarefa não seria das mais fáceis. Vivia se desprendendo, se despregando do rumo, afinal havia uma gama imensa de facilidades para perder o rumo, ultrapassar a linha tênue da lucidez.

Longe de desistir, alternava momentos de doce harmonia com tudo e todos ao redor, e outros em que a solidão lhe era a melhor companhia. Certo que muitas vezes lhe doía a alma, com sua tristeza ancestral, pois isso tinha vindo no seu sangue e não havia libertação possível. E nesses momentos era como se essa alma lhe dissesse: Quanta estupidez, quem pensa que é para imaginar que pode viver sem mim?

Passava por esses momentos como se fosse uma provação, que necessitava passar. Mas era forte e teimosa, absorvia a dor, conversava com a alma e lhe dizia que sim, compreendia a importância dela em sua existência, mas não esmoreceria, não perderia a lucidez.
No seu íntimo sabia: além daqueles dias de solidão e dor, haveria dias de contemplação do belo, em forma de poesia, de música, de cores, de amor...o amor, tão i(nt)menso que transbordava dela para a humanidade e talvez por isso aqueles momentos de pouca lucidez. Amava e continuaria amando. Contraditoriamente, esse era também, o seu ponto de equilíbrio. Não havia força que lhe tirasse do prumo, ia buscando os momentos de felicidade, onde menos podia imaginar que existissem. E seguia e andava na linha do trem, na corda bamba, balançando e retornando ao eixo. Pois que, queria era vida e a vida permitia tudo, até flertar com a loucura...

***

...Será preciso coragem para dizer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo?... (trecho do livro Paixão segundo G.H. - Clarice Lispector)
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O Leitor - o filme


Cenas do Filme

Verão em Porto Alegre! Esse podia ser o título do post, mas calma, eu chego lá.
Verão sem viagem, verão sem praia, verão sem Fortaleza, Recife, Salvador – lugares que eu gostaria de ter ido. Verão sem Carnaval – é, confesso, sou fã de carnaval, sou bem do tipo que vai atrás do trio elétrico ou de uma bandinha de frevo sem nenhum problema (tenho uns gostos esquisitos, eu sei!). Escola de samba não fui ainda, mas quem sabe né?!
Enfim, verão em Porto Alegre, institui o meu verão cultural. Resolvi ver todos os filmes que estejam em cartaz e, que eu ache interessante. Nesse fim de semana fui assistir O Leitor. Em outra ida ao cinema, tinha visto o trailer e gostei.

Primeiro o filme me chamou atenção por ter entre os atores, Ralph Fiennes, que eu adoro. Além dele a atriz principal (agora sei, já indicada para o Oscar por este personagem), Kate Winslet. Mas o papel do Ralph Fiennes ficou secundário, pois o ator alemão David Kross - para mim pelo menos, roubou a cena.

A história se passa na década de 50, em Berlim. Kate é Hanna Schimitz, uma cobradora de ônibus que conhece e se envolve com Michael Berg (David Kross), num romance quente intercalado com leituras de clássicos como a Odisséia de Homero. A questão é a diferença de idade, ele tem apenas 15 anos. O romance dura um verão, quando Hanna é promovida e sai de Berlim, sem deixar pistas para um garoto apaixonado. Praticamente todo o filme são recordações do adulto Michael Berg (Ralph Fiennes), que ficou marcado por esse romance, sem conseguir firmar laços com outras mulheres.

Michael volta a encontrar Hanna, quando ele é um estudante de direito, fazendo uma disciplina especial, e vai assistir ao julgamento de ex-carcereiras de Auschwitz, entre elas está Hanna. O choque é forte e durante o julgamento, Michael percebe que conhece um fato que poderia inocentar Hanna.

Para mim, o filme é antes de qualquer coisa um “levantar de questões” para um debate interessante sobre ética, afeto, culpabilidade, omissão, responsabilidade, muito presente na sociedade alemã no pós-nazismo. E por que não dizer ainda hoje, no mundo globalizado?
A cena em que Hanna pergunta ao juiz o que ele faria se estivesse no seu lugar é reveladora. O filme incita um debate muito mais profundo do que as discussões que normalmente são colocadas quando se “conversa” sobre o tema.

Outro bom momento é quando uma sobrevivente de Auschiwitz, em conversa com Michael (Ralph agora) sobre a ex-carcereira, indaga: isso é uma explicação ou uma desculpa? E fica sem resposta. O desfecho da cena é bem interessante.

Kate Winslet está ótima, gostei muito mais do que no outro filme (também em cartaz): Foi apenas um sonho (com Di Caprio), talvez por ter gostado mais do enredo de O Leitor. E segue meu verão cultural, pois daqui a pouquinho o ano começa para valer.
Quase esqueço de dizer: adoro o tipo de fotografia que esse filme tem!

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Trailer do Filme


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